Uma nova lista: filmes de janeiro

A primeira postagem, digamos, de peso em 2024 é uma nova obsessão minha: listar filmes assistidos. Tenho a mania de começar todo ano lendo muito. De tempos em tempos, chego a selecionar livros mais pelo tamanho que pela qualidade: escolho sempre livros finos, com menos de 200 páginas (se for menos de cem, é ainda melhor), para ler um por dia. Comecei isso alguns anos atrás, quando me dispus a ler todos as aventuras do livreiro ladrão Bernie Rhodenbarr, escritas por Lawrence Block, e consegui. Foram onze livros em cerca de quinze dias (o último romance de Rhodenbarr, uma sátira misturando crime e ficção cientifica intitulada The Burglar Who Met Fredric Brown, saiu em 2022, depois dessa maratona). Eu me diverti muito me impondo essa nada desagradável missão.

Mas este ano tudo mudou. Não sei exatamente por que razão, mas decidi ler menos (talvez porque esteja justamente terminando de revisar e reescrever um livro, e isso me consome muito tempo de palavra escrita) e ver mais filmes, para arejar a cabeça. Embora eu nunca tenha feito nenhuma lista de filmes, tenho certeza de que quebrei um recorde pessoal: foram 41 filmes assistidos durante o mês de janeiro, do 1 ao 31. Tenho o hábito de ver dois ao mesmo tempo (não na mesma tela; alterno ao longo de um ou dois dias), e provavelmente foi isso o que me fez chegar a esse número.

Comecei de peito aberto e cabeça fresca, sem planejar o que veria. Dos 41, vi somente um no cinema, com Patrícia: May December (No Brasil, Segredos de um Escândalo), de Todd Haynes. Não gostamos muito; o tema é bom mas o filme, na tentativa de não entregar clichês, acaba sendo bastante anticlimático – e um pouco mais longo do que achamos que deveria ter sido. O resto foi tudo visto em streamings, a saber: Netflix, Amazon Prime, HBO, Star +, Disney +, MUBI, Telecine Play, Criterion Channel. Eis a lista completa, com o título de cada filme seguido do nome do diretor:

Laura – Otto Preminger
Encontros e Desencontros – Sofia Coppola
Moonage Daydream – Brett Morgen
Nope – Jordan Peele
The Northman – Robert Eggers
Polite Society – Nida Manzoor
Bell, Book and Candle – Richard Quine
Rebellès – Allan Mauduit
The Day the Earth Caught Fire – Val Guest
Maestro – Bradley Cooper
Retratos Fantasmas- Kleber Mendonça Filho
The Running Man – Paul Michael Glaser
Design for Living – Ernst Lubitsch
The Battle of Britain – Guy Hamilton
Hitchcock/Truffaut – Kent Jones
French Exit – Azazel Jacobs
La Sociedad de la Nieve – J. A. Bayona
The One – James Wong
Threads – Mick Jackson
Lawrence da Arábia – David Lean
The Creator – Gareth Edwards
Chateau Paris – Modi Barry e Cédric Ido
Godzilla – Ishiro Honda
Segredos de um Escândalo – Todd Haynes (cinema)
Rogue One – Gareth Edwards
The Lair of the White Worm – Ken Russell
Saltburn – Emerald Fennell
Escape from New York – John Carpenter
A Jovem Victoria – Jean-Marc Valée
Os Demônios- Ken Russell
Almoço em Agosto – Gianni di Gregorio
John Wick 2 – Chad Stahelski
John Wick 3 – Parabellum – Chad Stahelski
Night Nurse – William A. Wellmann
On the Rocks – Sofia Coppola
Pickpocket – Robert Bresson
John Wick 4 – Chad Stahelski
The Women – Diane English
Altered States – Ken Russell
Maigret – Patrice Leconte
Nightmare Alley – Edmund Goulding

Algumas estatísticas:

. Dos 41, só cinco filmes foram dirigidos por mulheres;

. Vi dois filmes ou mais do mesmo cineasta: dois de Sofia Coppola e Gareth Edwards e três de Chad Stahelski e Ken Russell;

. Dos 41, onze foram vistos novamente; alguns pela segunda vez, e com pelo menos um deles (Lawrence da Arábia, um dos meus favoritos de todos os tempos) perdi a conta de quantas vezes já vi – provavelmente por volta de quinze.

. Vi seis filmes falados em línguas que não o inglês: três em francês, um em espanhol, um em italiano e um em português;

. Vi somente um filme brasileiro (Retratos Fantasmas, que recomendo fortemente);

. Vi nove filmes com minha mulher, Patrícia: um no cinema e os demais em streaming.

Os filmes foram listados na ordem em que os assisti/assistimos, sem classificação de qualidade; entretanto, me reservo o direito de recomendar que vejam os que mais gostei e, da mesma maneira, sugerir que passem longe dos que não gostei. A saber:

Os que mais gostei:

. Moonage Daydream – documentário fundamental para quem ama David Bowie, com imagens de arquivo pouco exibidas e bem pouca linearidade, o que é muito saudável em tempos de filmes “quadradinhos”;

. Lawrence da Arábia – um dos mais belos filmes já feitos na história do cinema, de todos os cinemas. É pra ver na tela grande (o que vi uma vez na vida, mas ainda quero ver de novo se for possível);

. Altered States – Viagens Alucinantes (título brasileiro, meio fora da casinha mas que faz todo o sentido) é um filme sobre um homem nada lúcido que se deve assistir sem influências entorpecentes para melhor desfrute (mas se quiser pode). O primeiro que vi de Ken Russell

. Os Demônios – Eu nunca tinha visto esse filme. Aproveitei a maratona Ken Russell do Criterion Channel e estou me esbaldando (ainda restam vários para ver, o que tentarei fazer agora em fevereiro); esse é um filme forte (graças ao roteiro baseado em parte no livro Os Demônios de Loudun, de Aldous Huxley) e com um set design beirando o expressionismo, feito por um Derek Jarman em começo de carreira (eu não sabia disso e foi uma bela surpresa ver o nome dele nos créditos); é daquele que sei que verei de novo, e, agora que voltei a ter DVDs, comprarei nessa mídia assim que possível;

. Retratos Fantasmas – essa viagem sentimental de Kleber Mendonça Filho mexeu comigo, que vi meus primeiros filmes ainda criança no Cine Carmoly, da Praça do Carmo, embaixo do prédio onde meu avô vivia; aqui o foco é o Recife, mas senti o impacto da nostalgia se comigo tivesse sido – e foi, porque somos contemporâneos (ele tem 55 anos e eu, 57). É um filme lindo, que também vou rever, mas não tão cedo, porque dói.

Corra que o filme ruim vem aí:

. French Exit – Saída à Francesa, como diz o título em português, é o que você precisa fazer no instante em que esse filme for exibido em qualquer lugar onde você esteja. Michelle Pfeiffer exagerada num filme produzido e escrito pelo autor, com base no seu romance muderninho novaiorquino que pode fazer sentido num livro, mas não no cinema; não é experimental, é ruim mesmo;

. The Creator – Resistência é um dos filmes mais fracos que vi nos últimos tempos. Pena, porque Gareth Edwards conseguiu fazer um bom trabalho com Rogue One, tornando-o um dos melhores da franquia Star Wars. Mas este filme é apenas uma história fraca e boba sobre pobres IAs tentando ser felize snum mundo que não as aceita e as chama de terroristas, com referências óbvias às Guerras do Vietnã e do Golfo. Efeitos visuais bonitos, mas até a minha suspensão de descrença (aceito de um tudo) caiu por terra no instante em que robôs sem órgãos vitais levavam tiros na altura do peito e do tronco e caíam mortos. Tudo tem limite, Gareth.

.The Battle of Britain – Esse filme de 1969 foi dirigido por Guy Hamilton, que dirigiu nada menos que quatro filmes de 007, entre eles Goldfinger e O Homem da Pistola de Ouro. Só que este aqui ficou uma porcaria, infelizmente: muitos atores excelentes bem mal aproveitados e cenas de batalhas aéreas em excesso sem quase nenhuma história para amarrar isso. Só vale a pena para quem quiser ver um jovem Ian McShane num de seus prímeiros papéis.

Gostei da maioria dos demais, por diferentes razões, que não elenco aqui por falta de tempo. No começo do próximo mês publico a lista dos filmes de fevereiro, que já comecei a assistir.

Anotando conceitos

Preparando uma aula sobre Utopias Logísticas, releio meu próprio paper a respeito (Kim Stanley Robinson, New York 2140 / Logistic Utopia, escrito por mim e publicado no livro UNEVEN FUTURES: Strategies for Community Survival from Speculative Fiction (ed. Por Ida Yoshinaga, Sean Guynes e Gerry Canavan – MIT Press, 2022), e me dou conta de uma coisa: o Capitalismo é uma Distopia Logística. Mais sobre isso em breve.

A vertigem das listas, 2023

Comecei este blog há pouco mais de um ano, em 12 de dezembro de 2022. Postei bem menos do que gostaria – foram no total dezesseis postagens, pouco mais de uma por mês. Quase todas envolvendo livros, e todas de caráter acadêmico pop. Como eu já disse antes, este blog é em homenagem ao k-punk, de Mark Fisher, e seu nome é um tributo ao livro homônimo de Julio Cortázar.

O segundo post, publicado no dia 28 de dezembro do ano passado, foi uma lista de livros recomendados a partir de uma brincadeira no antigo Twitter. Como eu saí da máquina infernal do Dr. Musk no dia 1o de janeiro deste ano, não houve repetição. Em vez disso, tomo a liberdade de postar aqui a lista de livros que li ao longo deste ano.

Sei que muita gente não gosta de listas e acha (com grande dose de razão) que elas são narcisistas. No meu caso, faço essas listas com razoável regularidade desde 1984, portanto muito antes da Internet comercial. Então não me sinto na obrigação de me explicar nem me desculpar. Esta minha lista é para consumo próprio, mas se alguém se sentir animada/animado a ler, minhas leituras favoritas de 2023 estão em negrito. À lista, pois. Os livros não estão em ordem de leitura nem de preferência, fui elencando de acordo com a memória e a lista do Goodreads, que por diversos motivos tenho deixado de atualizar.

Livros lidos na íntegra:

  1. Palestina – Joe Sacco
  2. The Pillars of the Earth – Ken Follett
  3. Winter of the World – Ken Follett
  4. Edge of Eternity – Ken Follett
  5. Ricardo e Vânia – Chico Felitti
  6. Maus – Art Spiegelman
  7. Foundation – Isaac Asimov
  8. Icehenge – Kim Stanley Robinson
  9. Ética do Amor Livre – Dossie Easton e Janet Hardy
  10. Desafio Poliamoroso – Brigitte Vassalo
  11. Uma autobiografia – Rita Lee
  12. Outra autobiografia – Rita Lee
  13. The Wild Shore – Kim Stanley Robinson
  14. Eon – Greg Bear
  15. Eternity – Greg Bear
  16. Fer-de-Lance – Rex Stout
  17. Balões de Pensamento 1 – Érico Assis
  18. A Arte da Biografia – Lira Neto
  19. O Silêncio da Chuva – Luiz Alfredo Garcia-Roza
  20. Achados e Perdidos – Luiz Alfredo Garcia-Roza
  21. Vento Sudoeste – Luiz Alfredo Garcia-Roza
  22. Uma Janela em Copacabana – Luiz Alfredo Garcia-Roza
  23. Berenice Procura – Luiz Alfredo Garcia-Roza
  24. Miracleman – Alan Moore, Neil Gaiman
  25. A Vida por Escrito – Ruy Castro
  26. Em Busca do Tintin Perdido – Ricardo Leite
  27. Psicopompo – Octavio Aragão
  28. Intempol – Agora – Octavio Aragão e outros
  29. The Shadow of the Torturer – Gene Wolfe
  30. Aurora – David Koepp
  31. Autonorama – Peter Norton
  32. The Sparrow – Mary Doria Russell
  33. The Library at Mount Char – Scott Hawkins
  34. 100 Must-Read Science Fiction Novels – Stephen E. Andrews e Nick Hennison
  35. Começando Albertina – Deise Abreu Pacheco
  36. Excession – Iain M. Banks
  37. A Última Noite de José Wilker – André Balaio
  38. A Bandeja de Salomé – Adriane Garcia
  39. Um Santo em Marte – Rogério de Campos
  40. Baguncinha – Santiago Santos
  41. Supergirl: woman of tomorrow – Tom King / Bilquis Evely
  42. One on One – Craig Brown
  43. Strange Adventures – Tom King
  44. Shogun Vol 1 – James Clavell
  45. Shogun Vol 2 – James Clavell

Destes, 15 foram releituras. Oito foram graphic novels (das quais 3 totalmente brasileiras e uma parcialmente, se contarmos a genial Bilquis Evely no traço de Supergirl). Cinco foram livros por mim traduzidos. 18 foram de autoras/es brasileiras/os, e somente oito de autoras. A ideia no ano que vem é ler mais autoras, não para ser politicamente correto (mas eu acho justo e válido), mas porque gosto muito da literatura feita por mulheres, seja de ficção científica ou de outros gêneros. Sempre achei – e continuo achando cada vez mais – que de modo geral elas escrevem bem melhor do que nós homens.

Para fechar, uma lista extra: de livros que não terminei de ler. Não os terminei porque fossem ruins: tenho TDAH, e não é nada difícil me desconcentrar da leitura quando surgem outras coisas (inclusive outros livros) e acabo deixando de lado livros que são muito bons, e que eu geralmente retomo meses depois. São eles:

  1. Look to the Lady – Margery Allingham
  2. No Enemy but Time – Michael Bishop
  3. A Few Last Words for the Late Immortals – Michael Bishop
  4. Todos os Contos – Julio Cortázar
  5. Stonefish – Scott R. Jones
  6. Totally Wired: Post Punk Interviews and Overviews – Simon Reynolds
  7. The Whole Mess – Jack Skillingstead
  8. Inventor of the Future – Alec Nevala-Lee
  9. Legends and Lattes – Travis Baldree
  10. The Big Book of Cyberpunk – ed. Jared Shurin
  11. Venomous Lumpsucker – Ned Beaumont
  12. Star Trek Strange New Worlds: The High Country – John Jackson Miller
  13. The Cult of Creativity – Samuel W. Franklin
  14. A Dance to the Music of Time, vol 1 – Anthony Powell
  15. Foundation and Empire – Isaac Asimov
  16. O que não faz de você budista – Dzongsar Jamyang Khyentse
  17. Dirk Bogarde: the authorized biography – John Coldstream
  18. Cary Grant: the making of a Hollywood Legend -Mark Glancy
  19. Airside – Christopher Priest
  20. Dante: A Biografia – Alessandro Barbero
  21. The Remembrancer’s Tale – David Zindell
  22. Shikasta – Doris Lessing
  23. The Trigan Empire, vol 1 – Mike Butterworth
  24. The Medusa Frequency – Russell Hoban
  25. Latim em Pó – Caetano W. Galindo
  26. Cryptonomicon – Neal Stephenson
  27. Pedro Páramo – Juan Rulfo
  28. The Third Man – Graham Greene
  29. A Sombra das Chuteiras Imortais – Nelson Rodrigues
  30. Slow Horses – Mick Herron
  31. Honoré de Balzac – Ilusões Perdidas
  32. Os Detetives Selvagens – Roberto Bolaño
  33. Green Earth – Kim Stanley Robinson
  34. The Caltraps of Time – David I. Masson
  35. Phantom Lady – Cornell Woolrich
  36. La Bibilioteca Perduta – Carlo Vecce
  37. Sagarana – Guimarães Rosa

Vamos às estatísticas: destes 5 eram releituras, uma graphic novel, dois de autores brasileiros e dois de autoras. Nada impressionante, nem era esse o objetivo. Geralmente leio o que entra no meu radar; poucos livros eu leio de maneira planejada e ordenada. Talvez 2024 mude um pouco essa escrita (literalmente) porque já separei alguns livros de pesquisa para meu próximo romance. Acredito que a lista vai aumentar em termos de número ano que vem, mas se isso não acontecer, nenhum problema. O que vale é ter lido. Boas leituras para nós tudo em 2024.

alguns apontamentos para uma crítica literária de ficção científica

Depois de quase dois meses sem escrever aqui, volto depois de um tempo ruminando uma questão que me incomoda, ou melhor, me instiga: temos uma crítica literária de ficção científica?

Eu quase me corrijo aqui dizendo que talvez fosse melhor reescrever o termo mudando a ordem dos fatores: “crítica de ficção científica literária” poderia ser mais preciso, mas a esta altura do campeonato eu sinceramente não sei se todo esse rigor é necessário. Mas algumas balizas, alguns marcadores de território, sim, eu acredito que sejam necessários e bem-vindos.

Penso nisso depois de um evento recente do qual participei, junto com alguns amigos e colegas de academia ligados á ficção científica como Octavio Aragão e Tiago Meira. Durante o evento, que tratava, entre outros temas, de Inteligência Artificial e para o qual fui convidado como escritor e pesquisador de ficção científica, percebi que praticamente ninguém na sala do Zoom (era um evento online) fazia a menor ideia das referências que eu e os meus colegas mencionamos.

Isso não é nada fora do comum em eventos das áreas de tecnologia ou de comunicação – embora eu sempre me surpreenda com o alcance da falta de informação (é isto um paradoxo?) que faz com que meus interlocutores nesses eventos de modo geral só entendam os códigos mais básicos, e mesmo assim relacionados ao audiovisual, como por exemplo robôs e naves espaciais. É totalmente legítimo mencionar esses códigos, e não há nada de errado aí – só que isso faz com que cada conversação desse tipo acabe se tornando uma grande frustração, porque exige que cada palestrante/participante que entende de ficção científica tenha a generosidade e a presença de espírito de (sem ser condescendente, isso é importante) explicar o que é a ficção científica realmente, para além dos seus clichês, para então poder de fato iniciar uma conversação séria.

Talvez um dos problemas seja exatamente esse: a ficção científica é encarada sempre como entretenimento, logo não pode ser séria. Mas como um megagênero, segundo Damien Broderick em seu clássico Reading by Starlight, que recomendo fortemente para quem deseja começar a estudar teoria crítica de ficção científica, a FC (e não sci-fi, termo criado para o audiovisual, coisa que até hoje pouca gente no Brasil sabe) comporta uma quantidade enorme de subgêneros. Ou talvez todos os gêneros, como alguns pesquisadores (eu incluído) que preferem ver a ficção científica como um modo narrativo.

Não sei se esse problema tem solução, talvez porque não seja exatamente um problema, ou o seja apenas para alguns. Mas o evento recente me fez voltar a pensar em algo que eu estava matutando faz um tempo: um curso de crítica literária de ficção científica. Desconheço se já foi feito algo do gênero no Brasil, mas acho fundamental, especialmente nos dias de hoje, em que abundam influenciadores (e mesmo resenhistas da grande imprensa) que não sabem como abordar uma obra de ficção científica sem recorrer a clichês, porque têm pouca ou nenhuma leitura, não só de livros de FC propriamente dita como também de teoria crítica ligada a ela. Pretendo ministrar um curso do gênero ainda este ano. Fiquem ligados.

uma história alternativa da ficção científica – criada por uma IA?

Quem soou o alerta foi o escritor Octavio Aragão ontem no Facebook. Um site, que supostamente seria da Bienal do Livro de Juiz de Fora, publicou um artigo interessantíssimo chamado “21 Livros que Vão Transportar Você para Outros Exoplanetas”. Esse artigo, como já diz o título, relaciona obras de vários autores conhecidos do publico leitor de ficção científica e fantasia, como André Vianco, Braulio Tavares, Luiz Bras e o próprio Octavio.

Só há um problema: nenhum dos livros mencionados existe. E alguns dos autores já se manifestaram a respeito, como Luiz Bras (heterônimo de Olyveira Daemon, the writer formerly known as Nelson de Oliveira). “Planetas Desconhecidos: Uma Odisseia Interplanetária” está lá, elencado como um de seus livros. E, parafraseando André Bazin, “eis o mais belo livro, mas ele não existe”.

Ainda que eu não concorde nem um pouco com Yuval Harari e sua análise estapafúrdia de que as IAs tem cinco por cento de chance de acabar com a humanidade (não concordo porque o capitalismo já está fazendo isso, obrigado), acho que estamos chegando a um turning point em que as fronteiras entre o ficcional (ou metaficcional) e o real vão ficar cada vez mais borradas. Só vai sair desse labirinto quem tiver lido, estudado, pesquisado, enfim: coletado informações e refletido sobre elas a fim de ter conhecimento.

Um exemplo concreto, visto também hoje no Facebook: o crítico de arte Tadeu Chiarelli comentava que conversou com três pessoas na casa dos trinta e mencionou de passagem a atriz francesa Brigitte Bardot. Nenhum deles (e, como frisou Tadeu, todos tinham cursado a universidade) fazia a menor ideia de quem foi Bardot.

A minha geração (estou com 57 anos) talvez tenha sido a última a ter uma vida analógica, sem dispositivos digitais portáteis, computadores pessoais e redes sociais. Eu continuo achando que tudo isso facilitou a nossa vida e estaríamos muito mal sem, mas a chamada “informação na ponta dos dedos”, como disse Bill Gates ainda no século passado, não parece ter ajudado em nada no processo de aquisição de conhecimento. Talvez por causa do excesso de opções e da dispersão?

Enquanto isso, como eu mesmo disse ao Luiz Bras, “No futuro, todos estarão em listas de 15 livros”, frase de Andy Warhol, que nunca disse isso, mas segundo o ChatGPT 4, poderia muito bem ter dito. E, parafraseando Nelson Rodrigues (alguém aí ainda lembra quem foi Nelson?), se os fatos não dizem isso, “pior para os fatos”. Vida (artificial) que segue.

a quem servem as distopias?

Voltando a este blog depois de um tempo (traduções e faculdade cobram seu preço), para uma pequena meditação de manhã de sábado: não me sai da cabeça o pensamento de que, mesmo quando escritas por autoras e autores de esquerda, uma distopia, por seu catastrofismo e profunda falta de esperança no futuro, serve muito mais aos anseios da direita. Porque utopias e distopias estão ligadas diretamente aos nossos anseios (questão tirada de Freud, Foucault e mais recentemente de Althusser).

O parágrafo acima, com pequenas alterações, foi postado hoje no Facebook. Dez minutos depois me deparei com uma excelente notícia: a de que o livro Os Funcionários, da dinamarquesa Olga Ravn, vai ser lançado aqui em junho. Tive a oportunidade de ler a tradução dele para o inglês, e – se quiseremos ser reducionistas – também é uma distopia, que mistura viagem espacial e burocracia numa pespectiva kafkiana. Isso me fez repensar o que escrevi apressadamente naquela rede e acrescentar: de modo geral as distopias pós-apocalípticas anglo-americanas dão ênfase a um catastrofismo que alimenta os anseios da direita. As de fora dessa esfera – e aí eu jogo no mesmo saco Kafka, Bruno Schulz, Olga Ravn, Julio Cortázar, Victor Giudice, entre muitas e muitos outros – tendem a se concentrar mais em visões burocráticas e sufocantes de distopia. As distopias, claro, são escritas como projeção de nossos medos mais do que anseios – mas atendem a anseios assim mesmo, porque o medo de uma coisa gera um anseio por uma resolução no sentido oposto, que sufoque ou elimine esse medo.

Portanto, fica a questão para quem escreve: no fundo, pelo que você anseia?

fight the future? (ou: ódio ao desconhecido)

a bola da vez esta semana é o ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2023, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. A premiação gerou um tsunami de críticas negativas na imprensa brasileira. Eu disse críticas? Esqueçam: uma definição mais adequada seria chiliques, com reações que foram do pretensamente intelectual ao simplesmente infantil, piti mesmo. Não vou me estender aqui porque este é um blog de conteúdo acadêmico, mas os textos que li me fizeram pensar a respeito das causas.

O mais arguto desses textos foi o da jornalista Jéssica Nakamura, no UOL. Jéssica analisa o que estaria por trás dessas supostas críticas, e chega à conclusão de que é o racismo, consciente ou não. Eu concordo, e já discuti o suficiente esse assunto nas redes, portanto não vou fazer isso aqui.

Acho mais importante levantar uma questão que diz respeito a dois pontos levantados pelos críticos: segundo eles, o filme seria simplesmente chato e incompreensível. São dois adjetivos que apontam para dois critérios, um subjetivo e outro objetivo. O da chatice é subjetivo, e é isso: cada um tem seu gosto, o filme não funciona para todos, nem precisa. Gosto não se discute.

Mas incompreensível? Será mesmo?

Não vou analisar o roteiro, mas hoje cedo, numa discussão no Facebook, me ocorreu o seguinte pensamento: sim, o filme pode ser incompreensível desde que o vejamos com os olhos da protagonista, a chinesa de 60 anos (vivida por Michelle Yeoh, que ganhou merecidamente o Oscar de Melhor Atriz) que vive uma vida chinfrim nos Estados Unidos e de repente é apresentada a infinitas versões de si mesma em universos paralelos. Se levarmos em conta que uma pessoa da categoria demográfica dela teria grandes chances de não fazer ideia do que seja o multiverso, sim, o filme poderia ser incompreensível.

O filme, claro, está muito longe disso, porque do meio para o fim da película o roteiro chega a ser chato (ahá!) ao explicar didaticamente o que seria esse tal de multiverso. O final (sem spoilers) é açucarado, quase agridoce, mas bem como a família hollywoodiana gosta. Portanto, é bobagem falar que o filme não faz sentido, a menos que você o abandone nos primeiros 15 minutos, como aparentemente muita gente fez e virou moda afirmar nas redes.

O que pensei foi que, em termos de intenção, os diretores (Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que também escreveram o roteiro) fizeram a mesma coisa que Anthony Burgess em seu livro Laranja Mecânica, que tive o prazer de traduzir para a Editora Aleph há quase vinte anos (todas as edições atualmente à venda têm essa mesma tradução, apesar das capas diferentes). Burgess criou o nadsat, pseudodialeto anglo-russo, para que a narrativa de seu protagonista Alex DeLarge fosse quase incompreensível para os leitores num primeiro momento, e só depois de perseverar na leitura eles (como pessoas mais velhas tentando entender um jovem) pudessem finalmente achar que algo foi entendido na narrativa – embora sempre sem ter certeza disso.

É um procedimento muito simples chamado estranhamento cognitivo, primeiramente formulado por Roman Jakobson. O formalista russo criou o conceito de ostranienie para dar conta do choque provocado por um acontecimento fantástico no meio de uma situação aparentemente corriqueira. As narrativas fantásticas de Kafka e Bruno Schulz (e algumas de Tolstói, estudadas por Jakobson) se valem desse procedimento. A palavra “cognitivo” foi acrescentada a uma nova formulação, criada por Darko Suvin em seu livro Metamorphoses of Science Fiction, para definir melhor o gênero da ficção científica. O estranhamento cognitivo é o que a personagem de Yeoh (e os espectadores, consequentemente) sente ao ter a consciência pulando de versão em versão através dos universos. Mas isso rapidamente é explicado e tudo passa a fazer sentido – bem mais do que em Laranja Mecânica, que é superior tecnicamente e também em termos de texto literário (e nem estou comparando com o roteiro, falho porém genial, de Stanley Kubrick).

A questão é entender o que está por trás da narrativa de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, coisa que me espantou porque sempre achei que bons críticos de cinema já teriam há décadas dominado os códigos imagéticos e textuais da ficção científica em todos os seus subgêneros. Mas isso demanda tempo e uma disposição que nem sempre se tem.

Todorov e os punks

Ontem comecei a reler Tzvetan Todorov para a revisão da nova edição de A Construção do Imaginário Cyber. Muita coisa aconteceu desde o fim do meu mestrado, em 2004, e a publicação da dissertação em formato de livro – obviamente. Daí a necessidade de um extreme makeover no texto, que, por motivos de deadline, acabou não incluindo uma série de autores que eu estava estudando então, Todorov entre eles.

Mas ontem, ao reler As Estruturas Narrativas, me ocorreu pela enésima vez o seguinte pensamento: como é possível escrever em um gênero determinado sem se apoiar no que veio antes? Claro, qualquer pessoa pode escrever o que bem desejar, mas escrever uma narrativa policial sem pelo menos conhecer parte do que veio antes quase sempre dá um péssimo resultado: o autor acaba reinventando a roda – e o que é pior, sem saber disso, o que só não é vexatório porque a maioria de seus leitores também não entende o suficiente do que veio antes para avaliar. Quem de vocês que me lê aqui e gosta do gênero já entendeu o comentário: será possível escrever uma narrativa de detetive de gabinete (do tipo em que o detetive não se envolve em brigas ou perseguições, mas resolve tudo com a inteligência, quase sem sair de casa) sem ter lido nada de Agatha Christie, Rex Stout ou talvez até mesmo Borges (autor com Bioy Casares do genial Don Isidro Parodi, que resolve os casos que lhe são apresentados sem sair da cela prisão em que se encontra)?

Impossível não pensar também na ficção científica, gênero em que me especializei tanto na escrita quanto na pesquisa acadêmica: quantos autores brasileiros mal conhecem meia dúzia de autores estrangeiros (o que dirá autores nacionais) e acabam produzindo textos absolutamente datados, porque tudo o que conhecem é o audiovisual do gênero, e mesmo assim talvez não passem da camada superficial hollywoodiana?


No passado, discuti essa questão muitas vezes com amigos do meio. Quase todos discordam (ou discordavam, sejamos justos) de mim, e tudo bem, porque ninguém é obrigado a concordar com tudo. Mas hoje, repensando as discussões, imagino que talvez eu não tenha me feito entender direito. Agora me ocorre que, nas discussões, nunca usei uma analogia que acho que pode explicar melhor o que quero dizer. A analogia é outra de minhas paixões e interesses, agora inclusive acadêmico: a música.

Senão, vejamos: quando alguém diz, quero montar um grupo de rock, pode até não saber tocar os instrumentos direito (estão aí os punks que não me deixam mentir), mas já têm uma noção muito boa do que querem tocar, por conta de milhares de horas ouvindo música em todos os seus formatos. Mesmo o punk dos anos 1970 que só queria (e só sabia) tocar três acordes já tinha ouvido muito blues, rock e outros bichos antes de decidir que não era nada disso que ele queria – e criar um som novo, mas que derivava dos anteriores. Os acordes estão presentes em todos gêneros musicais. Só a forma de tocar o instrumento varia.

Então, por que seria diferente na literatura? Por que alguém diz a si mesmo, vou escrever um livro de ficção científica com robôs (o que eu particularmente acho ótimo; não existem livros demais), mas só leu Eu, Robô (isso quando leu)? Onde, na bagagem literária dessa pessoa, entram R.U.R., Metrópolis, o Eu, Robô original (o título original vem de um conto de 1939 escrito por Eando Binder, pseudônimo usado pelos irmãos Earl e Otto Binder, este último aliás criador da Supergirl da HQs)? E as narrativas mais recentes, como O Homem Bicentenário, Blade Runner, os Moravecs em Ilium, de Dan Simmons, e o Murderbot dos livros de Martha Wells?

O que leva alguém a pensar que vai escrever um livro genial (ou mesmo um livro que preste minimamente) se não leu nada do que veio antes na sua área? Uma questão para pesquisa.

a arte feita por IAs é conservadora?

algo que me ocorreu ontem à noite, durante uma troca de comentários no Facebook sobre IAs que fazem arte: o amigo Osmarco Valladão, que é quadrinhista e discutia com Carlito Machado a frequência com que as IAs mostram imagens que, na melhor das hipóteses, seriam acidentes figurativos (ao contrário dos cometidos por humanos, que podiam criar acidentes abstratos – vide Picasso e Pollock, por exemplo).

Daí me ocorreu que na verdade esses tais “acidentes figurativos” não são necessariamente acidentais, e ainda que o sejam, eles não só não acrescentam nada à história da arte como podem também representar um reforço cognitivo do “só é arte se for belo, só é belo se for figurativo”, atitude típica do nazismo e fascismo com sua classificação da arte moderna como degenerada.

Se a IA um dia se tornar autônoma e puder participar dessa discussão adequadamente, acho que teremos algo interessante. Ou então que seus programadores hoje sejam pessoas que entendam que a arte é feita para romper limites, e não se conformar a eles. Porque não existe inteligência artificial que pense por si mesma, como na ficção científica (voltaremos a esse tema em algum momento aqui), e a responsabilidade (e a culpa) pertencem aos humanos que as programam.