a quem servem as distopias?

Voltando a este blog depois de um tempo (traduções e faculdade cobram seu preço), para uma pequena meditação de manhã de sábado: não me sai da cabeça o pensamento de que, mesmo quando escritas por autoras e autores de esquerda, uma distopia, por seu catastrofismo e profunda falta de esperança no futuro, serve muito mais aos anseios da direita. Porque utopias e distopias estão ligadas diretamente aos nossos anseios (questão tirada de Freud, Foucault e mais recentemente de Althusser).

O parágrafo acima, com pequenas alterações, foi postado hoje no Facebook. Dez minutos depois me deparei com uma excelente notícia: a de que o livro Os Funcionários, da dinamarquesa Olga Ravn, vai ser lançado aqui em junho. Tive a oportunidade de ler a tradução dele para o inglês, e – se quiseremos ser reducionistas – também é uma distopia, que mistura viagem espacial e burocracia numa pespectiva kafkiana. Isso me fez repensar o que escrevi apressadamente naquela rede e acrescentar: de modo geral as distopias pós-apocalípticas anglo-americanas dão ênfase a um catastrofismo que alimenta os anseios da direita. As de fora dessa esfera – e aí eu jogo no mesmo saco Kafka, Bruno Schulz, Olga Ravn, Julio Cortázar, Victor Giudice, entre muitas e muitos outros – tendem a se concentrar mais em visões burocráticas e sufocantes de distopia. As distopias, claro, são escritas como projeção de nossos medos mais do que anseios – mas atendem a anseios assim mesmo, porque o medo de uma coisa gera um anseio por uma resolução no sentido oposto, que sufoque ou elimine esse medo.

Portanto, fica a questão para quem escreve: no fundo, pelo que você anseia?

fight the future? (ou: ódio ao desconhecido)

a bola da vez esta semana é o ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2023, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. A premiação gerou um tsunami de críticas negativas na imprensa brasileira. Eu disse críticas? Esqueçam: uma definição mais adequada seria chiliques, com reações que foram do pretensamente intelectual ao simplesmente infantil, piti mesmo. Não vou me estender aqui porque este é um blog de conteúdo acadêmico, mas os textos que li me fizeram pensar a respeito das causas.

O mais arguto desses textos foi o da jornalista Jéssica Nakamura, no UOL. Jéssica analisa o que estaria por trás dessas supostas críticas, e chega à conclusão de que é o racismo, consciente ou não. Eu concordo, e já discuti o suficiente esse assunto nas redes, portanto não vou fazer isso aqui.

Acho mais importante levantar uma questão que diz respeito a dois pontos levantados pelos críticos: segundo eles, o filme seria simplesmente chato e incompreensível. São dois adjetivos que apontam para dois critérios, um subjetivo e outro objetivo. O da chatice é subjetivo, e é isso: cada um tem seu gosto, o filme não funciona para todos, nem precisa. Gosto não se discute.

Mas incompreensível? Será mesmo?

Não vou analisar o roteiro, mas hoje cedo, numa discussão no Facebook, me ocorreu o seguinte pensamento: sim, o filme pode ser incompreensível desde que o vejamos com os olhos da protagonista, a chinesa de 60 anos (vivida por Michelle Yeoh, que ganhou merecidamente o Oscar de Melhor Atriz) que vive uma vida chinfrim nos Estados Unidos e de repente é apresentada a infinitas versões de si mesma em universos paralelos. Se levarmos em conta que uma pessoa da categoria demográfica dela teria grandes chances de não fazer ideia do que seja o multiverso, sim, o filme poderia ser incompreensível.

O filme, claro, está muito longe disso, porque do meio para o fim da película o roteiro chega a ser chato (ahá!) ao explicar didaticamente o que seria esse tal de multiverso. O final (sem spoilers) é açucarado, quase agridoce, mas bem como a família hollywoodiana gosta. Portanto, é bobagem falar que o filme não faz sentido, a menos que você o abandone nos primeiros 15 minutos, como aparentemente muita gente fez e virou moda afirmar nas redes.

O que pensei foi que, em termos de intenção, os diretores (Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que também escreveram o roteiro) fizeram a mesma coisa que Anthony Burgess em seu livro Laranja Mecânica, que tive o prazer de traduzir para a Editora Aleph há quase vinte anos (todas as edições atualmente à venda têm essa mesma tradução, apesar das capas diferentes). Burgess criou o nadsat, pseudodialeto anglo-russo, para que a narrativa de seu protagonista Alex DeLarge fosse quase incompreensível para os leitores num primeiro momento, e só depois de perseverar na leitura eles (como pessoas mais velhas tentando entender um jovem) pudessem finalmente achar que algo foi entendido na narrativa – embora sempre sem ter certeza disso.

É um procedimento muito simples chamado estranhamento cognitivo, primeiramente formulado por Roman Jakobson. O formalista russo criou o conceito de ostranienie para dar conta do choque provocado por um acontecimento fantástico no meio de uma situação aparentemente corriqueira. As narrativas fantásticas de Kafka e Bruno Schulz (e algumas de Tolstói, estudadas por Jakobson) se valem desse procedimento. A palavra “cognitivo” foi acrescentada a uma nova formulação, criada por Darko Suvin em seu livro Metamorphoses of Science Fiction, para definir melhor o gênero da ficção científica. O estranhamento cognitivo é o que a personagem de Yeoh (e os espectadores, consequentemente) sente ao ter a consciência pulando de versão em versão através dos universos. Mas isso rapidamente é explicado e tudo passa a fazer sentido – bem mais do que em Laranja Mecânica, que é superior tecnicamente e também em termos de texto literário (e nem estou comparando com o roteiro, falho porém genial, de Stanley Kubrick).

A questão é entender o que está por trás da narrativa de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, coisa que me espantou porque sempre achei que bons críticos de cinema já teriam há décadas dominado os códigos imagéticos e textuais da ficção científica em todos os seus subgêneros. Mas isso demanda tempo e uma disposição que nem sempre se tem.

Todorov e os punks

Ontem comecei a reler Tzvetan Todorov para a revisão da nova edição de A Construção do Imaginário Cyber. Muita coisa aconteceu desde o fim do meu mestrado, em 2004, e a publicação da dissertação em formato de livro – obviamente. Daí a necessidade de um extreme makeover no texto, que, por motivos de deadline, acabou não incluindo uma série de autores que eu estava estudando então, Todorov entre eles.

Mas ontem, ao reler As Estruturas Narrativas, me ocorreu pela enésima vez o seguinte pensamento: como é possível escrever em um gênero determinado sem se apoiar no que veio antes? Claro, qualquer pessoa pode escrever o que bem desejar, mas escrever uma narrativa policial sem pelo menos conhecer parte do que veio antes quase sempre dá um péssimo resultado: o autor acaba reinventando a roda – e o que é pior, sem saber disso, o que só não é vexatório porque a maioria de seus leitores também não entende o suficiente do que veio antes para avaliar. Quem de vocês que me lê aqui e gosta do gênero já entendeu o comentário: será possível escrever uma narrativa de detetive de gabinete (do tipo em que o detetive não se envolve em brigas ou perseguições, mas resolve tudo com a inteligência, quase sem sair de casa) sem ter lido nada de Agatha Christie, Rex Stout ou talvez até mesmo Borges (autor com Bioy Casares do genial Don Isidro Parodi, que resolve os casos que lhe são apresentados sem sair da cela prisão em que se encontra)?

Impossível não pensar também na ficção científica, gênero em que me especializei tanto na escrita quanto na pesquisa acadêmica: quantos autores brasileiros mal conhecem meia dúzia de autores estrangeiros (o que dirá autores nacionais) e acabam produzindo textos absolutamente datados, porque tudo o que conhecem é o audiovisual do gênero, e mesmo assim talvez não passem da camada superficial hollywoodiana?


No passado, discuti essa questão muitas vezes com amigos do meio. Quase todos discordam (ou discordavam, sejamos justos) de mim, e tudo bem, porque ninguém é obrigado a concordar com tudo. Mas hoje, repensando as discussões, imagino que talvez eu não tenha me feito entender direito. Agora me ocorre que, nas discussões, nunca usei uma analogia que acho que pode explicar melhor o que quero dizer. A analogia é outra de minhas paixões e interesses, agora inclusive acadêmico: a música.

Senão, vejamos: quando alguém diz, quero montar um grupo de rock, pode até não saber tocar os instrumentos direito (estão aí os punks que não me deixam mentir), mas já têm uma noção muito boa do que querem tocar, por conta de milhares de horas ouvindo música em todos os seus formatos. Mesmo o punk dos anos 1970 que só queria (e só sabia) tocar três acordes já tinha ouvido muito blues, rock e outros bichos antes de decidir que não era nada disso que ele queria – e criar um som novo, mas que derivava dos anteriores. Os acordes estão presentes em todos gêneros musicais. Só a forma de tocar o instrumento varia.

Então, por que seria diferente na literatura? Por que alguém diz a si mesmo, vou escrever um livro de ficção científica com robôs (o que eu particularmente acho ótimo; não existem livros demais), mas só leu Eu, Robô (isso quando leu)? Onde, na bagagem literária dessa pessoa, entram R.U.R., Metrópolis, o Eu, Robô original (o título original vem de um conto de 1939 escrito por Eando Binder, pseudônimo usado pelos irmãos Earl e Otto Binder, este último aliás criador da Supergirl da HQs)? E as narrativas mais recentes, como O Homem Bicentenário, Blade Runner, os Moravecs em Ilium, de Dan Simmons, e o Murderbot dos livros de Martha Wells?

O que leva alguém a pensar que vai escrever um livro genial (ou mesmo um livro que preste minimamente) se não leu nada do que veio antes na sua área? Uma questão para pesquisa.

a arte feita por IAs é conservadora?

algo que me ocorreu ontem à noite, durante uma troca de comentários no Facebook sobre IAs que fazem arte: o amigo Osmarco Valladão, que é quadrinhista e discutia com Carlito Machado a frequência com que as IAs mostram imagens que, na melhor das hipóteses, seriam acidentes figurativos (ao contrário dos cometidos por humanos, que podiam criar acidentes abstratos – vide Picasso e Pollock, por exemplo).

Daí me ocorreu que na verdade esses tais “acidentes figurativos” não são necessariamente acidentais, e ainda que o sejam, eles não só não acrescentam nada à história da arte como podem também representar um reforço cognitivo do “só é arte se for belo, só é belo se for figurativo”, atitude típica do nazismo e fascismo com sua classificação da arte moderna como degenerada.

Se a IA um dia se tornar autônoma e puder participar dessa discussão adequadamente, acho que teremos algo interessante. Ou então que seus programadores hoje sejam pessoas que entendam que a arte é feita para romper limites, e não se conformar a eles. Porque não existe inteligência artificial que pense por si mesma, como na ficção científica (voltaremos a esse tema em algum momento aqui), e a responsabilidade (e a culpa) pertencem aos humanos que as programam.

primeiros trabalhos acadêmicos do ano

Ontem recebi duas ótimas notícias. A primeira na verdade foi o resultado de uma notícia que recebi pouco mais de um ano atrás, quando tive um artigo aceito para publicação no livro Uneven Futures: Strategies for Community Survival from Speculative Fiction, publicado pela MIT Press e editado por Ida Yoshinaga, Sean Guynes e Gerry Canavan. O artigo, que está num formato diferente do costumeiro (parágrafos numerados à maneira das teses wittgensteinianas) foi recebido com certo estranhamento, mas depois de uma rápida troca de e-mails os editores entenderam a intenção e aceitaram o formato sem problemas.

O artigo tem o título de Kim Stanley Robinson, New York 2140 (2017) / Logistic Utopia. Nele eu elaboro o conceito de “utopia logística”, com base em Fredric Jameson em seu Arqueologias do Futuro (que eu e o amigo Tiago Meira começamos a discutir no nosso podcast Viva Sci-Fi recentemente; fiquem ligados que iremos alternar programas sobre livros e temas de FC com a leitura e análise dos capítulos desse livro) e no livro Nova York 2140, de KSR, que é um dos meus autores favoritos, não só de ficção científica, mas de literatura estadunidense, ponto. Foi um trabalho que me deu muita alegria, não só pelo conteúdo, mas também por ter conseguido emplacar uma forma não-tradicional de escrita acadêmica.

Além disso, no fim do dia recebi um e-mail que estava esperando desde antes do carnaval: o aceite do meu artigo “EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO: SOBRE OS FUTUROS PERDIDOS DE MARK FISHER” para apresentação no III Congresso Internacional em Humanidades Digitais (HDRio2023), que vai acontecer no Rio de Janeiro entre os dias 16 e 20 de abril. Mark Fisher (de quem traduzi recentemente o livro póstumo Postcapitalist Desire e sobre o qual ministrarei um curso no segundo semestre) é um dos meus focos de pesquisa, e vou ter muito a falar sobre ele e o conceito de Assombrologia nos próximos tempos.

Centauro cada vez mais distante?

Pequena meditação de fim de tarde, lembrando do conto Far Centaurus, de A. E. VanVogt. Nesse conto, publicado originalmente em 1944 na revista Astounding Science Fiction e que pode ser encontrado aqui, uma expedição vai para Alfa Centauro em estado semelhante à criogenia, pois só chegarão lá séculos depois. A estrela fica a cerca de quatro anos-luz da Terra, e como não existe maneira de ultrapassar a velocidade da luz, eles precisam desse método. Mas, ao chegarem, descobrem que nesse meio tempo foi descoberto um jeito de ir além da velocidade da luz, e a região já está colonizada – e a viagem deles foi em vão. Às vezes fico me perguntando se algo semelhante não ocorre a nós, brasileiros, em relação ao nosso pensamento acadêmico e ficcional onde se cruza com a tecnologia. Até que ponto estamos realmente produzindo textos no estado da arte com relação ao que se faz lá fora? Aliás, isso é importante, ou sequer relevante? Tenho formulado uns pensamentos com relação aos chatbots (o ChatGPT em particular, mas não só ele) e também com relação a algo que não está diretamente ligado a isso mas a ideia de mentalidade de primeiro versus terceiro mundo: o recente anúncio da “atualização” dos livros do escritos Roald Dahl. Mais sobre isso em breve.

convergências da nostalgia

Hoje os algoritmos me trouxeram uma convergência que, se não inesperada nos dias que correm, pelo menos é um pouco auspiciosa. Um texto do Jamil Chade via Facebook, uma matéria da BBC compartilhada num grupo acadêmico no Whats, e uma postagem no blog do Octavio Aragão trazem todas a questão da nostalgia e de como ela pode ser perniciosa.

Os textos não tratam exatamente do mesmo assunto, mas desta vez o algoritmo (nome que, acho, às vezes usamos de maneira muito abrangente e talvez leviana, mas isso é assunto para outro post) foi realmente na mosca. O texto do Jamil é uma espécie de “carta aos homens de bem” – com uma certa ironia e muita tristeza, ao contar a infame história do Batalhão 101, composto em sua maioria de homens que não tinham nada a ver com a SS mas que queriam “apenas” matar judeus (aviso: o texto é curto mas doloroso). A matéria da BBC já dói na primeira frase, citação de uma entrevistada que esteve no ato terrorista de 8 de janeiro: “Você é patriota ou ‘jornazista’?” A matéria é uma pequena mas potente análise do poder de destruição das mídias sociais nas mentes dos bolsonaristas radicais, em particular dos mais velhos (com um aparte muito pertinente da antropóloga Mirian Goldenberg nos alertando contra uma possível “velhofobia”, pois os idosos não foram os únicos atingidos pela lavagem cerebral da extrema direita). E, para fechar, o post do Octavio (que, além de um grande quadrinista, professor universitário e pesquisador da área de Design), apontando justamente a nostalgia que comentei no começo do post, usando como exemplo um vídeo recente de um influencer de direita.

Essa convergência me deu mais o que pensar neste domingo modorrento e pré-carnavalesco em São Paulo. É ruim ter saudades do passado? Até que ponto a lembrança de coisas boas da infância e da juventude é precisa? Será que não lembramos com mais generosidade do que passou?

Ou a questão seria outra? E se lembramos com precisão sim, mas tomamos o que foi bom para nós como se automaticamente tivesse sido bom pra todo mundo, e por isso queremos impor ao mundo um retorno ao passado?

Escrevo tudo isso ouvindo post-punk do século 21. Se eu tivesse escrito a frase anterior nos anos 1980, provavelmente teriam me dito para deixar de bobagem, porque seria uma péssima ficção científica, com uma tremenda falta de imaginação – e no entanto estou ouvindo um tipo de música que foi importante para a minha formação, nos tempos de CEFET e de universidade.

Agora me pergunto: isso seria uma forma de nostalgia? Ouvir um mesmo estilo musical ao longo de décadas, ainda que renovado durante esse tempo por grupos novos, com novas vozes (ainda que se pareçam muito com as antigas, como já disse antes aqui mesmo), será isso um recurso à nostalgia? Porque não tenho saudades do passado per se, mas de algum modo quero reter uma certa textura, uma certa ambiência que me cercava na juventude e que me fazia feliz. Não me cerco dessa textura o tempo todo, assim como não uso sempre o mesmo estilo de roupa nem as mesmas cores (algo a se analisar mais à frente, aliás). Mas quem se deixa levar pelo fantasma da nostalgia estaria tentando se cercar em caráter definitivo dessa textura, dessa ambiência? A ponto de criar uma realidade alternativa que cercasse a pessoa como o famoso “campo de distorção da realidade” de Steve Jobs? Ou, para os cinéfilos, um “Adeus, Lênin” só que reacionário?

quem será nosso Iain Sinclair?

Pensamento Fisheriano do dia, após me recuperar da surpresa e do estranhamento de ouvir Muzak num restaurante no centro de São Paulo (ainda se produz Muzak?): as obras de Mark Fisher estão repletas de menções a autores e livros ingleses, o que faz todo o sentido, claro, pois Fisher era inglês. Apesar disso, seu pensamento, enraizado na cultura pop, pode ser perfeitamente traduzido (e está sendo) para o português.

Mas, na hora de explicar Fisher para uma classe universitária brasileira, será que todas as referências mencionadas por ele serão compreendidas? Sim, elas podem ser explicadas, mas e se pudermos explicar com nossos próprios exemplos? Que autores brasileiros Fisher (ou algum brasileiro que estude assombrologia) poderia mencionar? Que autores contemporâneos falam da cidade (por cidade entenda-se qualquer metrópole), suas andanças, suas paisagens urbanas, sua música?

Quem já leu toda a série da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O’Neill, deve ter reparado num personagem chamado Andrew Norton, o Prisioneiro de Londres. Norton, que por algum motivo obscuro está preso no espaço (não pode deixar jamais a sua cidade), mas não no tempo, motivo pelo qual ele vive saltando entre diferentes épocas, não foi um personagem inventado por Moore. Ele apareceu originalmente pela primeira vez no livro Slow Chocolate Autopsy, de Iain Sinclair, amigo de Moore. Na série de quadrinhos, Norton é desenhado à semelhança de Sinclair.

À exceção de uma única história, publicada em 2017 num volume de quadrinhos pela Editora Veneta (A Vida Secreta de Londres, org. Óscar Zarate), não existe nada de Iain Sinclair publicado no Brasil. Deveria haver: Sinclair talvez seja o autor que mais se dedicou a explorar sua cidade, Londres. Mesmo que não seja, provavelmente foi o que mais a percorreu a pé. Através da psicogeografia, Sinclair já percorreu grandes distâncias para explorar os trajetos de ruas, rios, prédios e seus labirintos, monumentos não tão antigos construídos para fins já esquecidos ou superados. Assim como seu amigo Alan Moore e Peter Ackroyd, Sinclair está profundamente enraizado na cidade, ou, como já foi dito num perfil acadêmico, na Matter of London, esse termo intraduzível mas que podemos entender como tudo o que permeia essa cidade, a questão envolvendo Londres, que como toda urbe secular, é ela própria uma entidade, um ser vivo, pulsante com diversos tipos de energia, e por cujas artérias circulam seus habitantes. (São metáforas velhas, clichês, mas nem por isso menos verdadeiros ou potentes.)

E no Brasil, quem será nosso Iain Sinclair?

O candidato mais provável talvez seja João do Rio, que dedicou sua vida a flanar pela cidade maravilhosa, descrevendo seus mais belos salões de baile e seus recantos mais sórdidos. João do Rio foi psicogeógrafo antes mesmo desse termo existir, e seus livros (recomendo em particular As Religiões no Rio, o meu favorito) serve como um excelente ponto de partida para quem quiser conhecer melhor o Rio que ainda existe. E nem falamos ainda da cidade de hoje, como Iain Sinclair fez em The Last London, um livro dedicado justamente às metamorfoses dessa cidade ao longo dos séculos e o que ela é neste momento. Tem alguém fazendo isso com relação ao Rio de Janeiro?

Claro, seria de uma sudestinidade ridícula e insuportável falar apenas de João do Rio e achar que o Rio representaria totalmente o Brasil. Não: poderíamos falar de João Antônio (São Paulo), Bernardo Élis (Mato Grosso), João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado (Bahia), Jamil Snege (Paraná), Dalcídio Jurandir (Pará) e dezenas, talvez centenas de outros (e outras) que já escreveram sobre seus estados e suas maiores cidades .

Mas esses autores não dão conta do hoje. Precisamos não de um, mas de uma legião de Iains Sinclairs, um para cada metrópole brasileira. Psicogeografar o país é uma forma de conhecê-lo em sua multiplicidade – para entendê-lo e quem sabe fazer algo de produtivo com esse entendimento.

PS: A referência ao muzak no começo do post é porque isso fez com que eu me lembrasse do livro The Condition of Muzak, de Michael Moorcock, outro britânico que já escreveu muito sobre Londres (tanto versões alternativas dela quanto relatos autobiográficos). Fisher citava Moorcock volta-e-meia. Como vocês veem, a referência não é gratuita, mesmo que num primeiro momento possa não fazer sentido nem ter utilidade.

a ideia de um cânone

Dois dias atrás, uma convergência fortuita (mesmo que pela via algorítmica) de posts de diferentes mídias sociais me trouxe duas coisas interessantes.

A primeira foi um post no Instagram onde um leitor me tagueou porque tinha acabado de ler minha tradução de LARANJA MECÂNICA e gostado. Mas nunca leia os comentários: a maioria esmagadora deles era de leitores que diziam querer muito ler, mas não conseguiram porque a escrita era muito difícil e/ou densa.

No mesmo dia, o Facebook me traz esse post abaixo, do amigo Steven Shaviro, autor de Doom Patrols e Discognition:

I try really hard to make my own science fiction fandom congruent with fandom more generally. But I come across way too many online reviews of sf texts that complain that the texts are “confusing”, when all they are doing is using a “lite” version of modernist techniques that were already common enough as to have been absorbed into the wider culture a century ago.

Numa tradução apressada:

Eu me esforço muito para fazer com que meu próprio fandom de ficção científica seja congruente com o fandom de forma mais geral. Mas me deparo com muitas resenhas online de textos de FC que reclamam que os textos são “confusos”, quando tudo o que eles estão fazendo é usar uma versão “leve” de técnicas modernistas que já eram comuns o suficiente para serem absorvidas pela cultura mais ampla há um século.

É uma questão com a qual eu venho lutando desde meu mestrado, há mais de vinte anos: como transmitir aos não-leitores de ficção científica os códigos necessários para a leitura e fruição do gênero? Durante um bom tempo defendi a ideia de um cânone justamente para isso, servir de porta de entrada para a ficção científica. Mas a ideia de um cânone é algo que vem do século vinte (que já vai longe, pelo menos cronologicamente) e foi popularizada nos anos 1990 por Harold Bloom. Se não é tão antiga, tem jeito de.

Mas quem precisa de um cânone hoje, em 2023? Os professores ou os alunos? Aqueles que mais precisariam (assim acreditamos) de um cânone não se interessam por ele. O que poderia substituir um cânone? Precisamos substituir um cânone por alguma outra coisa que ainda não sabemos qual seja? E, talvez a pergunta mais importante que não costuma ser feita: com que objetivo? O que nos propomos a mostrar, dentro de um campo tão vasto quanto o número de autoras e autores que nele habita?

nada de novo no front musical no século 21?

Vi uma postagem no Facebook alguns dias atrás sobre um incomodo que parece se disseminar entre a minha geração: segundo o autor, ele esperava que aparecessem hoje em dia cantores e cantoras tão poderosos quanto os que ouvíamos em nossa juventude. Os exemplos dados por ele: Robert Plant, Ian Anderson, Freddie Mercury, Gil, Milton, Raul Seixas, João Bosco, Cazuza, Gal, Janis Joplin. Uma possível explicação pensada por ele: “os vocalistas parecem sobrepor o estudo de técnicas de padronização de forma a recusar desenvolver o seu próprio timbre natural”.

Num primeiro momento, pensei em responder que outra explicação possível seria que a nossa geração já está chegando à casa dos sessenta, então é natural que a nostalgia comece a bater com força. Mas eu estava justamente começando a ler Fantasmas da Minha Vida, do Mark Fisher (recomendo), e, ainda que o saudosismo também faça sentido como explicação, Fisher faz uma observação bem parecida no seu livro, não diretamente ligada à questão da voz, mas sempre vinculada à música. Ele recusa a narrativa de que “são os velhos que não conseguem entrar em um acordo com os mais novos, afirmando sempre que antigamente era melhor”. Para ele, no entanto, isso não vale mais:

“Imagine um disco lançado nos últimos dois anos sendo alçado para trás no tempo, para 1995, por exemplo, e colocado para tocar no rádio. É difícil pensar em um grande impacto nos ouvintes. Pelo contrário, o que mais poderia chocar nosso público de 1995 seria o quão reconhecível é o próprio som: teria realmente a música mudado tão pouco nestes últimos dezessete anos?”

Fisher, 2022

Nos últimos tempos tenho percebido que, embora 90% do que eu ouço (estimativa porca) seja coisa nova, produzida nos últimos 5 anos, a maioria das canções post-punk que ouço tem apenas dois tipos de vocais: no feminino, cantoras que imitam Siouxsie; no masculino, cantores que imitam Robert Smith. Há exceções pra lá de honrosas, como Volkan Caner, da banda turca She Past Away, mas mesmo ele já está sendo imitado (e o estilo dele, embora potente, também me parece pegar emprestado algo de outros que vieram antes). Acho que já dá pra ver algo no horizonte em termos de novidade, mas muito, muito ao longe ainda. Mais sobre isso em outro momento.

Bibliografia

FISHER, Mark. Fantasmas da Minha Vida. São Paulo: Autonomia Literária, 2022