quem será nosso Iain Sinclair?

Pensamento Fisheriano do dia, após me recuperar da surpresa e do estranhamento de ouvir Muzak num restaurante no centro de São Paulo (ainda se produz Muzak?): as obras de Mark Fisher estão repletas de menções a autores e livros ingleses, o que faz todo o sentido, claro, pois Fisher era inglês. Apesar disso, seu pensamento, enraizado na cultura pop, pode ser perfeitamente traduzido (e está sendo) para o português.

Mas, na hora de explicar Fisher para uma classe universitária brasileira, será que todas as referências mencionadas por ele serão compreendidas? Sim, elas podem ser explicadas, mas e se pudermos explicar com nossos próprios exemplos? Que autores brasileiros Fisher (ou algum brasileiro que estude assombrologia) poderia mencionar? Que autores contemporâneos falam da cidade (por cidade entenda-se qualquer metrópole), suas andanças, suas paisagens urbanas, sua música?

Quem já leu toda a série da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O’Neill, deve ter reparado num personagem chamado Andrew Norton, o Prisioneiro de Londres. Norton, que por algum motivo obscuro está preso no espaço (não pode deixar jamais a sua cidade), mas não no tempo, motivo pelo qual ele vive saltando entre diferentes épocas, não foi um personagem inventado por Moore. Ele apareceu originalmente pela primeira vez no livro Slow Chocolate Autopsy, de Iain Sinclair, amigo de Moore. Na série de quadrinhos, Norton é desenhado à semelhança de Sinclair.

À exceção de uma única história, publicada em 2017 num volume de quadrinhos pela Editora Veneta (A Vida Secreta de Londres, org. Óscar Zarate), não existe nada de Iain Sinclair publicado no Brasil. Deveria haver: Sinclair talvez seja o autor que mais se dedicou a explorar sua cidade, Londres. Mesmo que não seja, provavelmente foi o que mais a percorreu a pé. Através da psicogeografia, Sinclair já percorreu grandes distâncias para explorar os trajetos de ruas, rios, prédios e seus labirintos, monumentos não tão antigos construídos para fins já esquecidos ou superados. Assim como seu amigo Alan Moore e Peter Ackroyd, Sinclair está profundamente enraizado na cidade, ou, como já foi dito num perfil acadêmico, na Matter of London, esse termo intraduzível mas que podemos entender como tudo o que permeia essa cidade, a questão envolvendo Londres, que como toda urbe secular, é ela própria uma entidade, um ser vivo, pulsante com diversos tipos de energia, e por cujas artérias circulam seus habitantes. (São metáforas velhas, clichês, mas nem por isso menos verdadeiros ou potentes.)

E no Brasil, quem será nosso Iain Sinclair?

O candidato mais provável talvez seja João do Rio, que dedicou sua vida a flanar pela cidade maravilhosa, descrevendo seus mais belos salões de baile e seus recantos mais sórdidos. João do Rio foi psicogeógrafo antes mesmo desse termo existir, e seus livros (recomendo em particular As Religiões no Rio, o meu favorito) serve como um excelente ponto de partida para quem quiser conhecer melhor o Rio que ainda existe. E nem falamos ainda da cidade de hoje, como Iain Sinclair fez em The Last London, um livro dedicado justamente às metamorfoses dessa cidade ao longo dos séculos e o que ela é neste momento. Tem alguém fazendo isso com relação ao Rio de Janeiro?

Claro, seria de uma sudestinidade ridícula e insuportável falar apenas de João do Rio e achar que o Rio representaria totalmente o Brasil. Não: poderíamos falar de João Antônio (São Paulo), Bernardo Élis (Mato Grosso), João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado (Bahia), Jamil Snege (Paraná), Dalcídio Jurandir (Pará) e dezenas, talvez centenas de outros (e outras) que já escreveram sobre seus estados e suas maiores cidades .

Mas esses autores não dão conta do hoje. Precisamos não de um, mas de uma legião de Iains Sinclairs, um para cada metrópole brasileira. Psicogeografar o país é uma forma de conhecê-lo em sua multiplicidade – para entendê-lo e quem sabe fazer algo de produtivo com esse entendimento.

PS: A referência ao muzak no começo do post é porque isso fez com que eu me lembrasse do livro The Condition of Muzak, de Michael Moorcock, outro britânico que já escreveu muito sobre Londres (tanto versões alternativas dela quanto relatos autobiográficos). Fisher citava Moorcock volta-e-meia. Como vocês veem, a referência não é gratuita, mesmo que num primeiro momento possa não fazer sentido nem ter utilidade.

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