nada de novo no front musical no século 21?

Vi uma postagem no Facebook alguns dias atrás sobre um incomodo que parece se disseminar entre a minha geração: segundo o autor, ele esperava que aparecessem hoje em dia cantores e cantoras tão poderosos quanto os que ouvíamos em nossa juventude. Os exemplos dados por ele: Robert Plant, Ian Anderson, Freddie Mercury, Gil, Milton, Raul Seixas, João Bosco, Cazuza, Gal, Janis Joplin. Uma possível explicação pensada por ele: “os vocalistas parecem sobrepor o estudo de técnicas de padronização de forma a recusar desenvolver o seu próprio timbre natural”.

Num primeiro momento, pensei em responder que outra explicação possível seria que a nossa geração já está chegando à casa dos sessenta, então é natural que a nostalgia comece a bater com força. Mas eu estava justamente começando a ler Fantasmas da Minha Vida, do Mark Fisher (recomendo), e, ainda que o saudosismo também faça sentido como explicação, Fisher faz uma observação bem parecida no seu livro, não diretamente ligada à questão da voz, mas sempre vinculada à música. Ele recusa a narrativa de que “são os velhos que não conseguem entrar em um acordo com os mais novos, afirmando sempre que antigamente era melhor”. Para ele, no entanto, isso não vale mais:

“Imagine um disco lançado nos últimos dois anos sendo alçado para trás no tempo, para 1995, por exemplo, e colocado para tocar no rádio. É difícil pensar em um grande impacto nos ouvintes. Pelo contrário, o que mais poderia chocar nosso público de 1995 seria o quão reconhecível é o próprio som: teria realmente a música mudado tão pouco nestes últimos dezessete anos?”

Fisher, 2022

Nos últimos tempos tenho percebido que, embora 90% do que eu ouço (estimativa porca) seja coisa nova, produzida nos últimos 5 anos, a maioria das canções post-punk que ouço tem apenas dois tipos de vocais: no feminino, cantoras que imitam Siouxsie; no masculino, cantores que imitam Robert Smith. Há exceções pra lá de honrosas, como Volkan Caner, da banda turca She Past Away, mas mesmo ele já está sendo imitado (e o estilo dele, embora potente, também me parece pegar emprestado algo de outros que vieram antes). Acho que já dá pra ver algo no horizonte em termos de novidade, mas muito, muito ao longe ainda. Mais sobre isso em outro momento.

Bibliografia

FISHER, Mark. Fantasmas da Minha Vida. São Paulo: Autonomia Literária, 2022

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