Recomendando livros para fechar bem o ano

Uns dias antes do Natal, criei um fio no Twitter segundo o qual eu recomendaria um livro a cada like recebido. O resultado final foi melhor que a encomenda: quase 300 likes. Como eu estava com um deadline de tradução nos meus calcanhares, não consegui recomendar tudo o que queria, mas cheguei a 80 livros. Reproduzo a seguir o fio do jeito que foi publicado, mas ao final acrescento mais 20 só para arredondar e fechar o ano com mais dicas. Este blog não vai se concentrar nisso, mas aguardem de tempos em tempos mais dicas. Boas leituras!

Neverness, de David Zindell. Um dos grandes clássicos modernos da space opera que quase ninguém no Brasil conhece. Devia ser traduzido. +

Grande Sertão: Veredas. Um dos grandes livros da literatura mundial. Shakespeariano sem deixar de ser profundamente brasileiro. E a linguagem! +

A Telepatia são os Outros, da @anarusche. Ficção científica, capitalismo, Latinoamérica? Nem tem o que discutir. Leiam já! +

A Vida se Ilumina, do camarada Tadeu Sarmento. Crônicas de futebol tão geniais que mesmo que você odeie o rude esporte bretão do ludopédio, vai gostar. +

Realismo Capitalista – a obra prima de Mark Fisher. Em 2023 vem livro novo dele aí e um curso sobre sua obra. Fiquem de olho, e leiam Fisher. +

The Vampire Tapestry, de Suzy McKee Charnas. Um vampiro no divã do psicanalista – e mais não digo. Outro que devia ser traduzido. +

Use of Weapons, de Iain M. Banks. Felizmente a série da Cultura já está sendo traduzida pela @edmorrobranco. Este é o meu livro preferido de Banks, um cara genial que infelizmente nos deixou muito cedo. +

O despertar de tudo: Uma nova história da humanidade, de David Graeber e @davidwengrow. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos. +

Mil Placebos, do comparsa @matheusmedeborg. Matheus é músico, escritor, observador do cotidiano. Uma das influências dele é J. G. Ballard, e só isso já me basta. Leiam. +

Five Twelfths of Heaven – uma space opera bizarra, depois de uma guerra entre magia e ciência onde a magia venceu, e as navegações são feitas por um sistema simbólico semelhante ao zodíaco. Genial! +

Reconhecimento de Padrões, de William Gibson. Para mim, o melhor livro dele. Tive a honra de traduzi-lo para a @editoraaleph. Vale demais a leitura. +

(um adendo: Five Twelfths of Heaven é da Melissa Scott, e ela é uma grande autora que deveria ser traduzida por aqui também)

Memórias Póstumas de Brás Cubas, do mestre Machado – precisa justificar? +

Moby-Dick, Herman Melville. Gosto tanto desse livro que tatuei o arpão de Queequeg no braço. Pra cima da baleia branca (e tudo na vida são baleias brancas)! +

Back in the USSR, por este que vos digita. Não ia deixar de recomendar um livro meu, né? Saiu pela @editorapatua e foi finalista do Jabuti na categoria Romance de Entretenimento. Vocês podem comprá-lo aqui: https://www.editorapatua.com.br/back-in-the-ussr-de-fabio-fernandes/p

Despertar, de Octavia E. Butler. Este é o primeiro livro da trilogia Lilith’s Brood, que já foi toda publicada pela @edmorrobranco. Um dos melhores livros de FC que já li na vida. Ninguém escreve como ela. +

O Anjo Pornográfico, Ruy Castro. Foi quando me apaixonei pelo mundo das biografias. Se o biógrafo não for um bom contador de histórias, o livro não decola. E este livro já é um clássico do gênero. +

Europe in Autumn. O 1o livro da Fractured Europe Sequence, de Dave Hutchinson, que deveria ser toda traduzida. Espionagem no futuro próximo, com leves toques de cyberpunk. +

Fractais Tropicais, editado por @LuizPersonas. A melhor e mais abrangente antologia de ficção científica brasileira de todos os tempos. São três gerações de escritoras/es reunidos. Material de colecionadores. +

Prosa do Observatório, Julio Cortázar. Um dos livros mais poéticos do mestre argentino. Também é o nome do meu recém-criado blog, que o homenageia: fabiofernandeswriter.com/resenhas/ +

The Book of the New Sun, Gene Wolfe. É uma pentalogia, mas não dá pra indicar um livro somente. Essa série é a magnum opus não só de Wolfe, mas de toda a ficção cientifica dos EUA. +

Eon, Greg Bear. Este autor, que nos deixou há menos de um mês, tem várias obras-primas, foi considerado um cyberpunk de primeira hora, e ainda é bem pouco conhecido por aqui. Esse livro trata da descoberta de um asteroide com um portal para terras alternativas em seu interior. +

Eduardo Galeano, Os Nascimentos. Li esse 1o volume da série Memórias do Fogo na adolescência, e foi uma delícia. Salve a América Latina! +

A Study in Ugliness & Outras Histórias. O primeiro livro de @hachepueyo é weird em forma e conteúdo: bilingue, no más, e contém alguns dos melhores contos fantásticos que já li. Pueyo é talvez a maior autora brasileira de sua geração, mas vai muito além disso. +

Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Márquez. Eu adoraria poder ler este livro de novo pela primeira vez. A história dos Buendía foi outra que marcou a minha juventude. +

Ficções, Jorge Luis Borges. Descobri Borges num mosteiro budista, durante um retiro. Encontrei esse livro na pequena biblioteca de lá e mudou minha vida para sempre. Este livro é um dos que me definem como escritor. +

Red Mars, Kim Stanley Robinson. KSR é um dos meus autores de FC favoritos, e este foi o livro dele que me fisgou. Quase o traduzi, mas a editora na época fechou. (Continuo disponível para este livro, se alguma editora se interessar) 😉 +

Capital is dead – is this something worse?, @mckenziewark. Comecei a ler há pouco tempo e estou fascinado. Tem tudo a ver com o que eu pesquiso. Aguardem mais a respeito em 2023. +

Future Noir: The Making of Blade Runner, Paul M. Sammon. Um relato delicioso de um jornalista fã que acompanhou as filmagens do clássico. Se você é fã se scifi e /ou de cinema, vale e muito. +

Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels. Mas como assim, Fábio, você é comunista? Sou. Leiam. +

The Death of the Cyborg Oracle, Jordan Rothacker. Um dos livros de FC mais weird que já li nos últimos tempos. No futuro distante, o oráculo de Delfos (ou uma persona ciborgue dele) é assassinado. Cabe a um detetive judeu ortodoxo e sua assistente solucionar o caso. Genial.+

Tumithak of the Corridors, Charles R. Tanner. Um clássico da FC dos anos 1930, que ainda funciona. Imaginem Flash Gordon, mas nos subterrâneos de uma Terra invadida gerações antes por aliens malignos. Asimov gostava. Eu também. +

Sandman Slim, @Richard_Kadrey. A série de dark fantasy que consagrou merecidamente Kadrey, um dos primeiros cyberpunks. Li todos e sou fã ardoroso. Também acho que alguém deveria traduzir a série aqui no Brasil. +

A Mão que Cria, @Octavio_Aragao. Um clássico steampunk moderno, escrito por Octavio há anos e que recentemente ganhou continuação. Gostam da Liga Extraordinária? Vão adorar este livro. +

A Espinha Dorsal da Memória, de @BraulioTavares. O livro que deu origem à série, digo, a tudo. Se a FC brasileira é o que é hoje, deve grande parte disso a este livro. Relançado pela @EditBandeirola recentemente. +

Gormenghast, Mervyn Peake. Nem Tolkien nem Lewis: o grande nome da fantasia (com grandes toque de weird e uma história de fazer uma pedra chorar de tão triste e bela) é Peake. Não tem pra ninguém. Que nunca tenha sido publicado aqui é um crime. +

Piranesi, Susanna Clarke. A autora levou anos para escrever outro livro depois do genial Jonathan Strange & Mr. Norrell, e com uma doença ainda por cima. Mas Piranesi é outro livro que merece virar clássico. Felizmente a @edmorrobranco também traduziu. +

Rosencrantz and Guildenstern are Dead, Tom Stoppard. Taí uma peça que eu sempre quis montar por aqui. Quase consegui nos anos 90, mas esta é uma outra história. Stoppard é brilhante e deveria ser montado aqui. +

A Cidade & A Cidade, China Miéville. Um dos livros mais desafiadores que tive a honra de traduzir (pela @editoraboitempo). Duas cidades que vivem no mesmo lugar no tempo e no espaço e não há nenhum mecanismo mágico por trás disso? Leia e saiba como! +

Last and First Men, Olaf Stapledon. Um dos livros de FC mais ousados que já foram escritos. O autor (de quem Arthur C. Clarke era fã) decidiu escrever a história da humanidade desde os anos 1930 até bilhões de anos no futuro. O ritmo é lento mas hipnotizante. E o final é lindo. +

A Canção dos Shenlongs, @diogosdeandrade. O quê? Autor brasileiro (e carioca) escrevendo wuxia? Temos. E é bom. Leiam. +

Cronofagia: come il capitalismo depreda il nostro tempo, de Davide Mazzocco. É o que o título diz: um estudo sobre como o capitalismo nos rouba o tempo. Muito bom para quem quer o fim do capitalismo. (eu quero, vocês não?) +

Embers of War, @garethlpowell. O primeiro de uma trilogia alucinante e muito divertida. Devia ser traduzido por aqui também. +

Space Invaders, de Nona Fernández. Só o título é FC: esta autora chilena escreveu um relato emocionante de sua infância durante a ditadura de Pinochet. Li em italiano mas já saiu no Brasil, pela @EditoraMoinhos. +

The Body Artist, Don DeLillo – livro pequeno que meio que passou batido por aqui, mas é uma joia preciosa. É uma das minhas inspirações na escrita. +

Gideon, a Nona, de Tamsyn Muir. Um livro muito interessante e mais complexo do que parece à primeira vista. A autora tem sido comparada a Gene Wolfe, e esta série dela como uma porta de entrada ao Book of the New Sun. Querem saber? Concordo. Saiu pela @AltaNovel +

This is Not a Novel, David Markson. Descobri o Markson tardiamente, mas ele já se tornou um dos meus autores do coração. Junto com Bolaño e Perec, é uma das minhas influências de escrita. +

2666, Roberto Bolaño – O livro do hermano mais genial que tivemos em tempos recentes. Quisera eu escrever algo assim (sigo tentando). +

Vida Modo de Usar, Georges Perec – eu uso muito a palavra “genial”, mas como classificar escritores como este? Não há palavra mais adequada. Através dele conheci o OuLiPo e me encantei. +

Exercícios de Estilo, Raymond Queneau. Se vocês que me leem são escritores, façam um favor a si mesmos e leiam este homem agora. Parem tudo e leiam. Eu costumo usar o Queneau em exercícios de oficina de narrativa curta. Vocês vão entender o porquê quando lerem. +

Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett. O grande clássico cyberpunk da minha geração, quando ainda mal sabíamos o que era isso. Publicado em 94, ficou esgotado por anos. A nova edição tem um prefácio deste que vos digita. +

E chegamos a 50 livros. Por hoje é só, que eu preciso trabalhar. Amanhã continuo. Buenas noches!

Bom dia! Muito obrigado por tantos likes! Acho que não vai dar pra listar tudo que hoje eu tenho muito trabalho, mas vou tentar. Começando a parte dois das minhas recomendações de livros: +

Piritas Siderais, de @kuja. Uma ficção científica cyberpunk a la Oswald de Andrade. Esgotado há quase 30 anos e não se sabe se algum dia será republicado. As editoras não sabem o que estão perdendo. +

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick. O melhor livro do mestre da paranoia: nazistas ganham a II Guerra e pessoas sonham com um mundo onde isso não aconteceu- o nosso. Traduzi. +

Aqui, de Richard McGuire: li nos anos 1980 quando era apenas uma história curta. Devorei quando virou graphic novel e chorei baldes. Profundamente comovente (e entra com folga numa lista de obras oulipianas). +

Os Meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnar. Obra-prima húngara que li criança, com tradução do maior de todos nós, o mestre Paulo Rónai. Tem edição recente pela @cialetras. +

Q, Luther Blissett. Martinho Lutero e Gutenberg: a mistura explosiva que ajudou a definir nosso mundo pelas mãos do coletivo italiano mais anárquico e brilhante desde Monty Python. Atualmente respondem pelo nome de Wu Ming. +

Deep Wheel Orcadia, Harry Josephine Giles. O vencedor do Arthur C. Clarke Award deste ano é um romance bilingue (inglês/gaélico), meio prosa, meio verso, por uma autora trans de Wales. É deste tipo de livro que a FC precisa para se renovar. +

Colonialism and the Emergence of Science Fiction, John Rieder. Um livro fundamental para estudos da área. Uso sempre. +

Behold the Man, Robert Silverberg. Que Operação Cavalo de Troia o quê! Só existe um livro bom sobre viagem no tempo e Jesus Cristo. Este. Não é para pessoas terrivelmente religiosas. +

A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso. Um dos livros que mais me entristeceram na vida. Explica bem o que aconteceu com o meu Rio de Janeiro (e que provavelmente irá acontecer com São Paulo). +

Lula – A Biografia (volume I) de Fernando Morais. O único defeito deste livro é ainda não termos o volume 2. Mas o livro em si não tem defeito: a biografia de Lula é genial. Acompanho desde 1980 e não é por outro motivo que sempre votei nele. +

(ERRATA: Behold the Man é de Michael Moorcock, não de Silverberg. 🙂) +

The Dream-Quest of Vellitt Boe, Kij Jonhson. Belíssima novela que adapta, atualiza e dá um banho no livro The Dream-Quest of Unknown Kadath, de Lovecraft. Livro feministaço sensacional, um tapa na cara do véio racista de Providence. Já publicaram aqui? Acho que não. +

O Silêncio da Chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Um ótimo começo de série de um escritor que começou tardiamente e que nos deixou cedo demais (e era um ótimo sujeito pessoalmente). Leiam as aventuras de Espinosa. +

Cidades Afundam em Dias Normais, de @alinevalek. Um livro bonito e melancólico (o meu tipo preferido). É uma das maiores escritoras de sua geração, ponto. +

Kalpa Imperial, Angelica Gorodischer. A incrível argentina, que nos deixou não faz muito tempo, nos narra a história de um reino imaginário que deixa qualquer narrativa dos EUA no chinelo. Ursula K LeGuin sabia disso; ela traduziu do espanhol para o inglês o livro da amiga. +

The Lunar Men, Jenny Uglow. A história real de cinco amigos que criaram uma sociedade no começo da Revolução Industrial para falar de… ciência! O meu universo dos Oneironautas tem origem com eles. +

Under Pressure, deste que vos digita. Novela steampunk publicada em inglês pela @NewConPress este ano. David Bowie e Viagem ao Centro da Terra, entre muitas outras coisas. Tem para Kindle na Amazon Brasil. +

Piscina Livre. Um clássico do mestre André Carneiro, que acabou de ser republicado num volume único com Amorquia pela @aveceditora. Vale a pena. +

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig. Um livro que marcou minha juventude. Acabei seguindo a linhagem Theravada do budismo, mas o zen foi e continua sendo importante para mim. +

Desabrigo, Antonio Fraga. Livro curto em três partes que nocauteia o leitor. Fraga foi malandro carioca raiz, da Lapa, de porres e navalhadas. Esse livro deixa qualquer um trololó das ideias. +

Schismatrix Plus, de Bruce Sterling. A grande tech opera cyberpunk com contos adicionais no mesmo universo. O episódio Enxame, da s3 de Love, Death and Robots, é adaptação de um desses contos. Muito além do cyberpunk que vocês conhecem. +

Ex Libris: Confessions of a Common Reader, de Anne Fadiman. Mentira: de comum a Anne não tem nada. Filha do famoso editor Clifton Fadiman, ela é uma bibliófila de primeira, e nos delicia com relatos que nos faz desejar frequentar as estantes dela. +

Get Carter: muito antes de Guy Ritchie havia Ted Lewis. Essa história de vingança sangrenta gerou um filme igualmente bom com Michael Caine nos anos 1970. Vale muito a pena. +

In the Buddha’s words: an anthology of discourses from the Pali Canon (edição de Bhikkhu Bodhi). Livro de estudo e devoção. Não tem frase de auto-ajuda, apenas sutras sobre o sofrimento e sua extinção. Foi e é de muita ajuda para mim. +

The Burglar who Painted like Mondrian, de Lawrence Block. Difícil escolher qual a melhor aventura do dono de sebo/arrombador de cofres Bernie Rhodenbarr. Todas são divertidas e de leitura fácil. Block é garantia de boas horas de entretenimento. +

The Six Percent Solution, Nicholas Meyer. O diretor de A Ira de Khan é também um holmesiano fanático. Seu primeiro romance envolvendo Sherlock Holmes é um clássico moderno: imagine SH se consultando com um certo Sigmund Freud para se livrar do vício em cocaína. +

Walks with Walser, Carl Seelig. O editor de Robert Walser fala de suas visitas ao escritor (que era um dos favoritos de Kafka) no sanatório onde ficou internado voluntariamente por quase 30 anos. Davam longas caminhadas e falavam de tudo. Tão peripatético quanto interessante. +

Jerusalem, Alan Moore. A magnum opus do bruxo de Northhampton é algo que merece ser lido bem devagar. Assim como A Voz do Fogo, seu livro anterior, é uma navegação afetiva ao redor de sua cidade natal. Não é para quem só gosta dos quadrinhos dele: é literatura em estado bruto. +

Babylon Berlin, Volker Kutscher. Investigações policiais na Berlim de pouco antes da II Guerra, quando a sombra do nazismo já mergulhava a louca e devassa República de Weimar nas sombras. Vejam a série e leiam os livros. +

Duna, Frank Herbert. Ignorem todas as versões para o cinema: nenhuma delas consegue captar um décimo do que é Arrakis e as intrigas palacianas desse livro. Opinião impopular: para mim, o volume 2 (Messias) é melhor, mas para saber o porquê só lendo o primeiro. +

E fechamos com um clássico: Floresta é o Nome do Mundo, de Ursula K. LeGuin. Inspirou Cameron a fazer Avatar mas é, claro, muito melhor que o filme. +

OS VINTE LIVROS ADICIONAIS (sem ordem de preferência, do mesmo jeito que os oitenta anteriores):

Serpente, Rex Stout. O primeiro dos 47 livros que têm como protagonista o genial detetive Nero Wolfe. Eu já gostava dele desde o primeiro livro que li (Clientes Demais), e ainda mais depois que descobri que, segundo suposições de fãs pesquisadores, ele poderia ser o filho ilegítimo de Sherlock Holmes e Irene Adler . Há quem diga que ele na verdade seria filho de Arsène Lupin, mas cada fã tem a sua verdade; a minha é que não importa, pois Wolfe é um detetive espetacular por si só.

Stella del Mattino, Wu Ming. Eu já tinha citado na em cima o coletivo italiano Luther Blissett. Já faz um bom tempo que eles mudaram de nome e passaram a se chamar Wu Ming. Desta vez, porém, já se sabe o nome dos membros, e cada livro lançado atualmente pelo coletivo traz sempre uma designação numérica que os identifica. Este livro (que narra um encontro fictício entre Tolkien, C. S. Lewis e Robert Graves em Oxford com Lawrence da Arábia) foi escrito pelo Wu Ming 4, ou seja, Federico Guglielmi.

A Era das Revoluções, Eric Hobsbawm. O primeiro livro que li do historiador marxista britânico e o que mais me marcou. Talvez eu tenha começado a ser marxista por causa dele (do autor e deste livro).

O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar. Falei mais acima da Prosa do Observatório mas não poderia deixar de mencionar este que me marcou de verdade pela prosa não-linear. Foi minha influência em mais de um livro que escrevi (e é uma das influências do livro que estou escrevendo agora).

Saga, Brian K. Vaughan e Fiona Staples. Essa história em quadrinhos me fez chorar já no número 1. Na verdade, não tem uma edição em que eu não me comova profundamente com essa saga de star-crossed (literalmente) lovers no meio de uma guerra devastadora. Comprando religiosamente até o final.

Unexpected Places to Fall From. Unexpected Places to Land, Malcolm Devlin. Devlin é o heterônimo de Vince Haig, capista britânico premiado, atualmente radicado na Nova Zelândia. Devlin é um tremendo escritor weird, e Haig é um bom amigo que tive o prazer de fazer na minha turma da Clarion West em 2013. Os contos desse livro são bizarros e assustadores em sua aparente tranquilidade.

Weapons of Math Destruction, Cathy O’Neil. O livro definitivo sobre Big Data e como eles de fato são usados. Já tem tradução para o português.

Take Back Plenty, Colin Greenland. O primeiro volume de uma trilogia cyberpunk espacial de primeira linha, publicado em 1990. Fun fact: Greenland é marido de Susanna Clarke.

Revolução Molecular, Félix Guattari. Outro livro que mexeu com a minha cabeça nos tempos da faculdade. Guattari já falava de vivência identitária muito antes de nós, e ler esse livro hoje continua fundamental. Estava esgotado, mas em 2023 sai edição nova no Brasil.

A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares. Talvez o livro mais importante de ficção científica latino-americana do século passado. Foi uma das inspirações de Lost. Se a série tivesse se inspirado mais nessa novela, talvez tivesse fechado de modo mais consistente (e menos óbvio).

A Queda do Céu, Davi Kopenawa e Bruce Albert. Deveríamos ler mais livros de autores indígenas brasileiros. Este aqui é fundamental.

An Informal History of the Hugos, Jo Walton. Esta é pra quem é fã de ficção científica e do fandom em geral: aqui, a escritora e colunista Jo Walton traça um panorama quase completo da história dos Hugo Awards, completa com listas de finalistas e premiados. Ela abrange desde o começo, em 1953, até 2000. O livro é de 2018, mas os capítulos são adaptados de sua coluna para o site Tor.com, onde ela publicou essa história informal entre 2000 e 2013. Repositório precioso e de fácil acesso para quem precisa – e gosta.

A Invenção da Natureza, Andrea Wulf. A biografia definitiva de Alexander von Humboldt. Comprei a edição alemã em Frankfurt e cotejei com a brasileira, o que me deu grande alegria, primeiro porque meu alemão não está tão mal quanto eu supunha (para ler somente; não falo nada do idioma de Goethe), segundo porque o próprio Humboldt era um linguista dedicado: dizia-se que aprendia um idioma novo em seis meses.

Drácula, Bram Stoker. Também não é preciso justificar, mas vamos lá mesmo assim: Não é só um livro de vampiros, nunca foi: os personagens são todos usuários de tecnologia (máquina fotográfica Kodak, máquina de escrever, gravador de rolo de cera) e subitamente se veem tendo que enfrentar um mal ancestral, contra o qual o império vitoriano nada pode. Que tenham vencido Drácula é um milagre que só acontece na literatura.

Anno Dracula, Kim Newman. Mas e quando o milagre não acontece? Neste romance, Newman justamente analisa o que teria acontecido se Drácula tivesse vencido – e criado um império de vampiros. Antes da Liga Extraordinária de Moore, Newman criou uma fabulosa narrativa onde aparecem alguns dos mais famosos vampiros, além de outras figuras literárias do século 19.

Frankenstein, Mary Shelley. Também não se pode deixar de falar do grande divisor de águas da literatura fantástica. Só o prefácio à quarta edição já valeria a pena, pois ali Shelley explica as influências científicas para sua narrativa. Mas o livro em si é genial, e inspirador: meu romance BACK IN THE USSR deve tudo a Mary Shelley e sua criatura.

Quatro Futuros: a vida após o capitalismo, Peter Frase. Esse livro deveria ser leitura obrigatória na faculdade, independentemente da área. Frase escreve de maneira simples, objetiva e divertida, citando inclusive Star Trek para falar de sociedades futuras onde não existiria mais dinheiro e todos teriam de tudo, ou seja, sociedade pós-escassez. É um exercício muito útil para quem se interessa em construir (ou reconstruir, como no nosso caso) uma sociedade justa e plena.

Fully Automated Luxury Communism, Aaron Bastani. Peter Frase se inspirou parcialmente nesse livro, onde Bastani aprofunda questões relativas aos “males” do comunismo e diz o que realmente interessa saber: é possível viver numa sociedade sem escassez, onde há tudo para todos? Bastani sustenta que sim, e eu concordo.

The Outside, Ada Hoffmann. Space opera, Lovecraft e autismo: como não gostar desse livro, que é o primeiro de uma trilogia de botar filmes como Event Horizon no chinelo? A autora é do espectro, e consegue criar uma protagonista muito instigante, pelo menos para leitores também no espectro como eu.

K-punk, Mark Fisher. Fecho esta lista de cem livros indicando mais um do camarada Fisher: k-punk é o nome do blog dele, que ainda existe. É mais rápido e fácil consultar os textos dentro do e-book, mas enquanto o blog existir vocês podem fazer isso de graça.

Por ora é isso. Aguardem que em 2023 tem mais dicas de livros – e cursos sobre alguns deles (Mark Fisher em especial).

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