Pensando muito hoje sobre velocidades e temperamentos – conceitos que abarcam mentalidades dos séculos 18 a 20, de Voltaire a Deleuze, só para uma breve elocubração:
Somos julgados pela produção literária e pela maneira como nos comportamos em relação a ela?
Pensei nisso ao ver o anúncio de Alison Entrekin com relação à sua nova tradução de Grande Sertão: Veredas, que finalmente ficou pronta depois de anos (creio que uma década, aproximadamente?). Daí lembrei dos trabalhos de tradução de amigos pesquisadores, trabalhos geralmente desenvolvidos ao longo de anos, seja porque é um trabalho de amor e não tem remuneração, seja porque uma bolsa de pesquisa foi oferecida e lhes permite trabalhar devagar – coisa que geralmente se deve ao fato de não haver uma editora garantida naquele momento (e portanto sem grandes cobranças) ou ser uma editora universitária, que é regulada por um tempo diferente das editoras comerciais.
E penso no tempo exíguo que normalmente tenho para fazer traduções que mereceriam muitos meses mas que as editoras atualmente concedem apenas dois ou três meses – e digo isso sem levar em conta a questão das IAs.
E digo isso também pensando na diferença entre os escritores chamados literários e aqueles que escrevem o que se chama de entretenimento. Os escritores literários que falam manso, não são dados a grandes gestos nem declarações bombásticas mas que são (talvez por isso) sempre convidados para eventos e festas literárias Brasil afora. Enquanto isso, os escritores de entretenimento (que, como todos sabemos, são fãs, nerds, barulhentos e não fazem nenhuma questão de parecerem cool nem de esconderem a paixão e o tesão pela escrita – e que se reúnem sempre em nichos e precisam eles próprios criar os eventos que possam frequentar, porque as portas dos literários nao se abrem facilmente para eles.
Escritores literários normalmente levam anos para escrever um livro, com dor, sofrimento e um tanto de ponderação, a escolha da palavra exata, le mot juste, essas coisas. Ao passo que o escritor de entretenimento não: às vezes escreve dois livros por ano, sem contar os contos publicados nas inúmeras antologias que as editoras independentes lançam por ano. São velocidades diferentes.
Normalmente eu terminaria a última frase com “e está tudo bem”. Porque deveria estar mesmo; cada qual com seu cada qual. Eu sempre acreditei que a literatura comporta de um tudo, existe espaço para todos. Passei quarenta anos acreditando nisso.
Agora já não estou tão certo.
Mas estas são apenas notas.