uma outra internet era possível (ou: meu primeiro blog)

Hoje estava dando aula sobre Transmídia e eu falava aos meus alunos sobre como a internet da virada de milênio era tão diferente do que se vê hoje. E aí lembrei do meu primeiro blog, o Lanceiro Livre. Eu ainda morava no Rio de Janeiro mas viajava a cada quinze dias a São Paulo para reuniões de pauta com a equipe do Vento, portal de business da telefônica Vésper. Foram bons tempos: eu, Aurora Barbosa, Otávio Venturoli e Thales de Menezes. Eu era o repórter free-lancer do site: entregava todos os meses um pacote 4x4x4: quatro matérias sobre empreendedorismo e business, quatro resenhas de livros da área e quatro entrevistas com empreendedores, CEOs e autores de auto-ajuda financeira. Era trabalhoso, mas aprendi muito ali.

Um dia, Aurora me chama e me diz que criou um weblog, ou simplesmente blog para os íntimos: uma página que você podia criar numa plataforma (no caso, a Blogspot) e usar como diário digital. Eu não conhecia o conceito, que no entanto já era disseminado nos EUA e na Europa, onde inclusive já começava a surgir um movimento de jornalistas blogueiros. Dei uma olhada e gostei. Ela me ensinou como criar a minha, o que era incrivelmente fácil, e pronto: surgiu o Lanceiro Livre, tradução literal de free-lancer.

Então, no meio da aula, me deu um estalo e fiz uma busca rápida por esse blog no Google, algo que eu não fazia há anos. E ele ainda está todo lá.

Abaixo, reproduzo o primeiro post só para vocês terem um gostinho de como eu escrevia naquela época:

Lanceiro Livre: o Arquétipo do Ronin

Free-lancer: muita gente é, mas será que todos conhecem a origem do termo que identifica o profissional autônomo de modo geral? Muitos anos antes de saber que eu me tornaria membro dessa nem sempre tão prestigiada porém mui interessante confraria, ouvi em uma novela da Globo (vejam vocês!) uma das personagens explicar a outra o significado do termo free-lancer: a expressão seria originária da Idade Média, para designar cavaleiros que não serviam a nenhum reino específico, e que portanto tinham suas lanças livres, à disposição de quem quisesse e pudesse pagar por seus serviços. Esta semana decidi usar o Google para conferir a veracidade do relato novelesco. Achei a seguinte explicação no site da Dra.Beverly PotterO termo free-lance tem sua origem no período após as Cruzadas, quando um grande número de cavaleiros se separou de seus senhores. Ela não explica o resto, pois o site se concentra mais na figura japonesa do ronin, a quem compara os cavaleiros do medievo ocidental, mas junte-se essa frase à explicação da novela e você pode imaginar: cavaleiros armados até os dentes com lanças, escudos e armaduras, pelejando (literalmente) para descolar uns trocados e voltar para seus reinos. A metáfora com o trabalho do profissional autônomo não deixa de ter suas razões: não temos reinos para os quais voltar, mas precisamos pagar as contas da casa. Afinal, o lar de um homem é o seu castelo, diz o velho ditado. Quanto a mim, em dezembro completo dezesseis anos de atividade quase ininterrupta como free-lancer (ou frila, para os íntimos) nas áreas de jornalismo e tradução. Tem valido a pena. E, quanto ao nome do blog, ninguém usa a expressão traduzida para o português, é verdade. Mas achei que cairia bem, pelo menos como nome de blog. Espero que gostem.

Passei uma atividade para os alunos e comecei a navegar no velho blog. O template original (uma homenagem a Mondrian, composto por quadrados e retângulos multicores e que depois customizei para um padrão azul e branco) não existe mais. A foto minha que está ali é de 2015, atualizada automaticamente pelo Google, salvo engano. Em 2001 eu não usava barba e meus cabelos eram quase todos pretos. Mas os posts estão todos ali, cerca de 50, escritos ao longo dos dez meses da vida breve daquele blog. Depois dele vieram vários outros: o Lanceiro Livros, derivado que acredito ter sido o primeiro blog brasileiro dedicado a resenhas literárias (Santiago Nazarian diz que ele foi o primeiro, mas não sei não: de qualquer modo, está aí o link pra quem quiser conferir), o Zero Absoluto (de onde tirei o email que até hoje uso – todos os posts foram apagados, não lembro se fui eu ou se aconteceu algum bug) e o Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, que virou até livro.

Agora a aula já acabou há muito tempo, voltei para casa e sigo aqui, percorrendo os links para posts de quase vinte e cinco anos, escritos com, assim me parece, mais leveza e uma certa ingenuidade. Desde então, tanta coisa aconteceu: divórcios, casamentos, nascimentos, funerais. E até mesmo os blogs desapareceram para dar lugar às redes sociais, para voltarem recentemente, seja na forma de newsletters, seja no formato mais tradicional – como este aqui, agora no WordPress. Navegar nesse blog antigo me deu um pouco de conforto; por um tempo, pude entrar em contato com um outro Fábio, numa outra internet, num outro mundo, que hoje é apenas uma página na web. Mas não, não dói. Foi bom revisitar esse tempo.

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