Devo a um DJ da Baixada Fluminense a descoberta dessa cantora pós-punk europeia. Ouvindo hoje cedo um mix no YouTube, me deparei com uma canção dela com o título de Be Possessed. Já faz um tempo que venho fazendo uma pesquisa informal (leia-se: sem muito critério nem pressa) sobre bandas pós-punk desconhecidas dos anos 1980 e 1990, e essa canção me interessou bastante. Ela foi lançada aparentemente em 1980, e eu nunca tinha ouvido falar dela, o que não é nada incomum em se tratando de bandas ou cantoras/es da Europa dessa época.
Então fiz o que faço sempre nesses casos: uma pesquisa no próprio YouTube para descobri mais sobre ela. E de fato achei um canal só com músicas dela. No total são onze, e sem contar a canção acima que o DJ Pedrão tocou em seu mix. O canal está no nome de um certo Jesse Livermore, e as canções de Schopenhauer trazem o rótulo de German Goth Post-Punk, o que tem muito a ver com as músicas em si, que não são cantadas em alemão (quase todas em inglês com algumas partes em francês) mas tem uma pegada darkwave bem bacana e uma sonoridade que lembra várias cantoras e bandas dos anos 1980.
O que faz mais sentido ainda, porque tudo indica que Marina Schopenhauer não existe.
Não existe mais nenhuma referência a ela no YouTube que eu tenha encontrado. Então dei uma busca no Google. E o que encontrei foi uma página do Reddit justamente sobre ela. O usuário Same-Umpire-8656 lançou a seguinte pergunta: Does anyone know Marina Schopenhauer?
On July 4th until now, a user under the name Jesse Livermore started uploaded songs from a artist called Marina Schopenhauer. User stated that are Dark wave post punk or German dark wave, all from 80’s. Most of the comments wrote that there were AI generated (probably because the voice and the thumbnails seems like it), I’m no quite sure about it but I couldn’t any info about the singer or songs. Couple of videos were taken down, in which the user wrote that label dissapear during neo nazi riots in germany as long other bands/singers. Personally, I enjoyed the music and would be interesting to know if she really existed and know more about her.
Outro usuário do reddit, man_gomer_lot, respondeu:
There’s no way I wouldn’t have already come across her work. All the results on YouTube are less than 2 months, nothing about her shows up in the various published vinyl archives, no discographies, and a little too on the nose in every way.
O mistério se adensa quando você tenta descobrir mais sobre Jesse Livermore, que supostamente mora em Portugal, pois é o que diz a informação biográfica em seu canal, mas o que vale uma informação dessas, de verdade? O mesmo que o nome dele, que não traz nenhum resultado em pesquisas a não ser um grande especulador de Wall Street na primeira metade do século 20. Fakes dentro de fakes.
Quem é Jesse Livermore? E foi ele (ou ela, ou elu) quem compôs ou criou as músicas com IA? E isso importa? As músicas de Marina Schopenhauer estão começando a viralizar por canais de música darkwave e post-punk na web. E sabem o que mais? São bem boas. A minha favorita é esta aqui.
Estou lendo o excelente Monsters: a Fan Dilemma, de Claire Lederer, livro escrito com base no artigo que a autora fez para a New York anos atrás sobre Woody Allen, com a pergunta mais do que pertinente: é possível apreciar obras de arte feitas por monstros?
O livro nada tem de “cancelador” ou condenatório, mas coloca em perspectiva a visão do público perante obras de arte: afinal, é preciso conhecer a biografia do artista para melhor apreciar a obra, ou o contrário é que seria o ideal? Lederer se alinha mais aos que acreditam na força da biografia, mas a questão que ela levanta ao longo do livro é que talvez seja mais importante considerar a biografia da pessoa que aprecia a obra. Patrícia me lembra que existe um nome para isso: viés de disponibilidade, ou seja, a pessoa vai responder à obra de acordo com seus conceitos e preconceitos.
A questão que Lederer levanta não tem resposta fácil. Mas uma coisa é interessante lembrar: nós não temos nenhum controle sobre a biografia do artista. E, de certa forma, nem sobre a nossa. Mas nossas opiniões podem (e devem) mudar com o tempo.
Julho foi o mês mais fraco do ano em termos numéricos – mas não em qualidade. Foram 26 filmes em 31 dias; isso se deu porque julho foi o mês em que voltei depois de um longo tempo a assistir a série Doctor Who clássica, e passei quase todas as noites vendo primeiro um episódio do Segundo Doutor (Patrick Troughton) para depois começar um longa-metragem. Em compensação, foi o mês em que mais fui ao cinema: três filmes assistidos na tela grande, sendo dois com Patrícia (C’è Ancora Domani e Fausto Fawcett na Cabeça) e um sozinho (Deadpool e Wolverine). Além disso, tive um desafio a cumprir, proposto pela Patrícia, de ver pelo menos 80% de filmes dirigidos e/ou protagonizados por mulheres. Querem saber se eu consegui? Vamos à lista.
His Girl Friday – Howard Hawks Variety – Bette Gordon Theodora Goes Wild – Ryszard Boleslawski The Awful Truth – Leo McCarey Goyo – Marcos Carnevale O Fabuloso Destino de Amélie Poulain – Jean-Pierre Jeunet Roadrunner – a film about Anthony Bourdain – Morgan Neville It Happened One Night – Frank Capra The Apartment – Billy Wilder C’e Ancora Domani – Paola Cortellesi (cinema) The Woman King – Gina Prince-Bythewood Desaparecidos na Noite – Renato de Maria The Naked Civil Servant – Jack Gold Le Bonheur – Agnes Varda Irma La Douce – Billy Wilder Bonjour Tristesse- Otto Preminger A Vingança Está na Moda – Jocelyn Moorhouse Crisis on Infinite Earths, Part 2 – Jeff Wamester Diálogos com Ruth de Souza – Juliana Vicente Fausto Fawcett na Cabeça – Victor Lopes (cinema) Mrs. Harris Goes to Paris – Anthony Fabian Bacurau – Kleber Mendonça Filho Morvern Callar – Lynne Ramsay Artistas e Modelos- Frank Tashlin A Chicken for Linda – Chiara Malta e Sebastien Laudenbach Deadpool e Wolverine – Shawn Levy (cinema)
Estatísticas:
. Dos 26, eu já havia assistido 4: o que mais revi foi Amélie, um dos meus filmes favoritos. It Happened One Night, outro filme de que gosto muito (como quase todos os de Frank Capra), fica em segundo. Artistas e Modelos era um favorito da Sessão da Tarde, onde a dupla Jerry Lewis/Dean Martin reinou suprema por anos (e depois nas tardes de sábado). O menos visto até hoje foi Bacurau, mas isso vai mudar radicalmente nas próximas semanas, pois estou trabalhando num projeto acadêmico que envolve esse filme e ele será reassistido pelo menos mais duas vezes nas próximas semanas (talvez mais, se o projeto for aprovado – cruzem os dedos).
. No cinema vi três filmes: com Patrícia, o italiano C’è Ancora Domani, dirigido e estrelado por Paola Cortelesi, praticamente desconhecida no Brasil mas uma atriz celebrada na Itália, de quem já vi a enraçadíssima comédia Come un Gatto in Tangenziali, e a pré-estreia paulistana de Fausto Fawcett na Cabeça. Fausto, amigo de duas décadas com quem já troquei muitas ideias e prefácios de nossos livros (ele em Os Dias da Peste, eu em Santa Clara Poltergeist). De resto, vi sozinho o terceiro filme ontem, Deadpool e Wolverine. Mas no streaming eu e ela vimos mais cinco filmes: Goyo, sobre um rapaz autista que se apaixona (mas no fim se revela tóxico do mesmo jeito que os homens neurotípicos, o que nos incomodou porque o filme o defende – e eu, como autista, não posso defender um macho tóxico só porque ele é neurodivergente), Roadrunner, A Vingança está na Moda e Mrs. Harris Goes to Paris, este dois últimos sobre moda e muito bons. Sobre o quinto eu falo mais abaixo.
. Com relação a idiomas, foram oito filmes falados em idiomas que não o inglês: três filmes em francês, um em espanhol, um em italiano e três em português, vejam vocês. Não é o melhor número internacional do ano, mas também não é o pior. A ideia também é ver filmes mais diversos linguisticamente no resto do semestre – e mais brasileiros, certamente.
. Finalmente, o Desafio: dos 26, 8 eram dirigidos por mulheres, mas outros 8 eram protagonizados por mulheres, então o total foi de 16 filmes, o que dá 60%, e não 80%. Mas gostei do desafio, e vou continuar procurando a proporção áurea de 80.
Como nos demais meses, os filmes foram listados na ordem em que os assisti, sem classificação de qualidade; entretanto, me reservo o direito de recomendar que vejam os que mais gostei e, da mesma maneira, sugerir que passem longe dos que não gostei. A saber:
Os que mais gostei:
este foi um mês muito saboroso em termos de qualidade (volta e meia mediada por nostalgia): foram muitos os filmes de que gostei genuinamente – embora em vários mais antigos, como por exemplo o filme de Frank Capra e o de Frank Tashlin, a quantidade de situações de assédio (mal) disfarçadas de romantismo, tenham me incomodado de um jeito que não o fariam uma década atrás (e esse incômodo é bom):
. His Girl Friday – essa é a segunda versão do roteiro genial de Ben Hecht sobre um jornalista que não consegue (literalmente) abandonar a profissão. Essa versão é gender-swapped, ou seja, o protagonista era homem mas um incidente na primeira leitura do roteiro (em que a atriz Rosalind Russell leu o papel de Hildy Johnson porque o ator havia faltado e todos adoraram) fez com que Hawks pedisse a Hecht para reescrever o roteiro. E deu muito certo. Junto com Cary Grant, Russell faz uma das duplas mais explosivas e engraçadas do cinema. É pra ver, rever, colecionar e exibir para todo mundo.
Amélie – Nem preciso falar muito desse filme. Continua tão bonito visualmente e narrativamente quando na época em que foi lançado, lá se vão quase vinte e cinco anos. Um dos favoritos da vida.
. Roadrunner – Confesso que só me liguei na existência de Anthony Bourdain depois de sua morte. Hoje sou um fã ardoroso desse sujeito tão incrível e tão torturado. Foi gostoso mas também muito duro ver os depoimentos dos amigos; todos estavam visivelmente emocionados, e eu e Patrícia também nos comovemos muito.
Corram que o filme ruim vem aí:
. Desaparecidos na Noite – olha, eu tento defender os filmes italianos, mas nos últimos tempos tem sido difícil. Esse filme é uma trama até que bem elaborada, mas por que diabos em toda separação, mesmo quando o homem é um bosta (como no caso deste filme, sobre um sujeito viciado em jogo que estraga a relação com a família) mas no fim a verdadeira culpada é a mulher? Evitem.
. Crisis on Infinite Earths – Já vi a parte um e a dois, e não vou ver a três. Não tenho nenhum problema com adaptações que se desviam muito do material original. Mas neste caso a DC parece ter seguido o Protocolo Zack Snyder: muita porrada e cara feia, e pouco roteiro. Tudo muito previsível e bobo, infelizmente.
Que eu leio praticamente todos os dias vocês já devem saber. Não sei se sabem, porém, que eu tenho um leque muito amplo de interesses, e que todos os dias eu encontro algo diferente e inusitado que me atrai o olhar.
A bola da vez (ou deveria dizer a pedra da vez?) é o livro Mountains of the Mind: Adventures in Reaching the Summit, de Robert MacFarlane, que estou usando na pesquisa para escrever meu romance mais recente. Escritor e documentarista, MacFarlane nos leva por uma viagem vertical vertiginosa, contando histórias de sua vida e de outros exploradores e alpinistas com o objetivo de nos explicar como foi que surgiu esse interesse alucinado do ser humano em escalar montanhas.
O livro é uma delícia de ler: MacFarlane faz uma arqueologia do alpinismo por intermédio de livros e relatos que vão desde o século dezoito (que é quando as pessoas começam a prestar atenção nas montanhas como algo além de acidentes geográficos supostamente criados por Deus) até os grandes exploradores do século vinte, como Mallory e Hillary. Mas tem de um tudo: de Rousseau e John Ruskin a Lorde Byron e Charles Lyell. De geologia a masculinidade tóxica (o que havia e ainda há de sobra entre os homens que se arriscam em altos picos), passando por história da arte e filologia, MacFarlane nos oferece um vasto panorama da história recente por intermédio das montanhas, que ao fim e ao cabo, segundo ele num arroubo que bem poderia ser budista, são mais um produto da nossa mente que da natureza.
Acabo de ver nas redes que a escritora Nicola Griffith (autora de Ammonite e Hild, entre outros livros de impacto profundo na ficção científica e histórica) vai entrar para o Hall da Fama da Ficção Científica e Fantasia do Museum of Popular Culture de Seattle. É uma tremenda honra e um tremendo museu (estive lá em 2013), e Nicola vai receber a honraria junto com outra gigante, Nnedi Okorafor, mais conhecida do público brasileiro.
Lendo a respeito no blog dela, dou de cara com a seguinte citação que ela faz de outro homenageado de anos atrás, ninguém menos que William Gibson:
Eu sou nativo da FC, mas não um residente.
Hoje mesmo, conversando com minha mulher sobre o impacto que foi o filme Fausto Fawcett na cabeça (mais sobre isso em outro post), eu falava sobre como a ficção científica é algo que faz parte da minha vida (e eu faço parte da ficção científica, Patrícia acrescentou), mas que não é tudo. Ainda tenho muito chão a percorrer nesse país, mas cada vez mais tenho me aventurado por outros territórios, inclusive o da não-ficção, em que tenho pelo menos dois livros planejados até 2026. Gibson, sempre elegante, resumiu muito bem aquilo que eu penso e sinto: sou nativo desse país literalmente fantástico que é a ficção científica e não moro mais nele em tempo integral. Mas ostento com orgulho meu passaporte.
Hoje entrou no ar o episódio 98 do podcast Viva Sci-Fi, do Tiago Meira, do qual tenho o prazer de participar como co-host desde a edição 45, há pouco mais de dois anos. O tema foi a comemoração dos quarenta anos de publicação de Neuromancer, de William Gibson. Acho que foi o episódio em que eu mais falei (desculpe, Tiago): afinal, não sou apenas um fã, mas também traduzi esse livro, e ele está praticamente no meu DNA. Foi graças a ele que minha escrita tomou um outro rumo, em 1989, e eu acabaria sendo conhecido no meio literário como um escritor cyberpunk (e depois steampunk).
Mas uma coisa que eu procurei deixar bem clara no episódio é que está tudo bem se você não gosta desse livro. O próprio Gibson já declarou em várias entrevistas que ele acha o livro fraco hoje em dia, e de certa forma ele tem razão. Se comparado com seus livros mais recentes, especialmente Reconhecimento de Padrões e Periféricos, isso faz todo sentido.
Eu defendo que Neuromancer é um bom livro no sentido de que ele foi um marco importante, um divisor de águas na literatura do gênero, e não faz a menor diferença se os termos técnicos usados por Gibson estão errados ou datados. A título de comparação, dá pra dizer que Moby-Dick é um livro ruim porque a navegação marítima de hoje não é a mesma de 150 anos atrás? Pois é.
A questão do estilo mereceria ser discutida à parte. Eu abordo isso parcialmente no meu livro A Construção do Imaginário Cyber (fruto do meu mestrado e atualmente esgotado), mas também não importa: gosto não se discute. Se você acha que Neuromancer é mal escrito, você está errado, mas tudo bem. O livro simplesmente não é fácil de ler hoje em dia.
Mas numa coisa os críticos recentes têm acertado: algumas coisas não fazem mesmo sentido no romance, que é basicamente uma heist novel ambientada no futuro próximo. Heist movie é como os americanos chamam um filme de roubo, mas não um roubo qualquer; heist é aquele roubo bem arquitetado, geralmente com uma gangue de especialistas, para arrombar um cofre-forte de segurança máxima em algum lugar virtualmente inacessível.
E é exatamente isso o que Neuromancer é. Case, Molly, Armitage e o Finlandês se juntam para roubar uma inteligência artificial da empresa que a criou. No caso, a Tessier-Ashpool, que mantém a IA presa dentro de um mainframe numa estação orbital.
Faz sentido? Não. Afinal, todo mundo sabe que um programa de software (e grosso modo, é isso o que uma IA é) não está preso a um computador físico, pelo menos não de modo definitivo. Graças à web, o sistema de wifi e à computação em nuvem, um hacker hoje em dia faria uma cópia do programa e pronto, não seria sequer preciso roubar nada físico ou desconectar algo do sistema. Mas William Gibson não tinha como saber disso porque não só o ciberespaço como ele o descreve jamais existiu (e dificilmente existirá), mas a World Wide Web, o sistema de wifi e a cloud computing simplesmente não existiam em 1984.
Então só agora, depois do podcast gravado (desculpe mais uma vez, Tiago) me dou conta de que não lancei o argumento mais importante para se defender Neuromancer: ele virou um romance histórico. Evidentemente que não é um romance histórico tradicional, como Wolf Hall ou Os Pilares da Terra, mas um livro que relata coisas com o ponto de vista de um usuário da tecnologia da época em que foi escrito. E só por isso já valeria, já vale, a leitura. Porque é preciso entender o contexto da obra.
Hoje começo um curso novo: MARK FISHER: PENSADOR DA CULTURA POP. O título é uma homenagem ao livro seminal de Renato Mezan sobre Freud. Nele, Mezan traça uma biografia intelectual do pai da psicanálise para nos mostrar como aquele homem, que viveu na Viena do fin-de-siécle, poderia ter criado conceitos como o Complexo de Édipo, por exemplo.
Gosto muito de biografias. Gosto mais ainda das biografias do tipo “Life and Times”, que explicam o entorno, a época e o lugar em que o biografado nasceu e se criou, para nos mostrar que tudo, ou quase tudo é contexto. E gosto sobretudo das biografias intelectuais, que nos mostram o que a pessoa biografada consumiu de informação e cultura.
Penso isso enquanto releio Althusser e Gramsci, duas influências na vida de Fisher, e ouço muito post-punk, estilo de minha preferência e também da dele. Uma biografia intelectual de Fisher não seria má ideia. A se pensar.
Já faz um tempo que assinei o streaming da BritBox, que contém quase tudo da BBC e da iTV. É um streaming bem eficiente, particularmente se considerarmos que a BBC, que aderiu ao Brexit com força, foco e fé, simplesmente não aceita que ninguém de fora do Reino Unido assine seu streaming oficial. A BritBox britânica, aliás, fechou há alguns meses, restando apenas a americana, que é a que eu assino. Mas eu nem teria assinado o canal da terra do rei, porque por incrível que pareça eles não tinham o que eu estava procurando: a série clássica de Doctor Who.
Para quem não sabe: a série britânica do alienígena viajante do tempo e do espaço, que completou 60 anos em 2023, é dividida agora oficialmente em três séries: a chamada Clássica, que vai desde a criação do programa de TV em 1963 a 1989, a nova, que durou de 2005 a 2022, e a novíssima, produzida em parceria com a Disney +, e que acaba de fechar sua primeira temporada. Eu já havia assistido a quase todos os episódios da nova; não vi todos os de Peter Capaldi e Jodie Whittaker e não sei quando verei porque eles não estão mais disponíveis em nenhum streaming nacional ou estrangeiro, com a exceção do BBC iPlayer.
Mas agora, graças à BritBox, estou matando uma vontade de anos e assistindo aos episódios clássicos, desde o começo.
Infelizmente o começo é um tanto atribulado: dos quase 900 episódios da série inteira, faltam 97, que foram apagados dos arquivos da BBC nos anos 1960 (naquele tempo o armazenamento era em fitas magnéticas, não existia ainda o arquivamento digital). Esses episódios são todos dos primeiros dois doutores, período de 1963 a 1969. E hoje cedo cheguei ao fim dos episódios do Segundo Doutor (Patrick Troughton).
Por conta da confusão dos episódios inexistentes, a quantidade de saltos na cronologia é muito grande, e isso me incomoda profundamente (mente autista, relevem). Vi pouca coisa do Primeiro Doutor (William Hartnell) e um pouco mais do Segundo. A série foi melhorando ao longo desses seis primeiros anos, e o último serial do Segundo Doutor, The War Games, é bem acima da média dos episódios anteriores. O roteiro, escrito por Terrance Dicks (que viria a se tornar um dos mais importantes autores da série, inclusive escrevendo novelizações de episódios e livros com histórias originais de Doctor Who) e Malcolm Hulke, compensa a precariedade dos cenários e as péssimas coreografias de luta e de corre-corre (que me lembraram das chanchadas da Atlântida). É também esse serial que lança o conceito dos Time Lords e mostra pela primeira vez, ainda que num cenário pequeno, o mundo natal do Doutor, Gallifrey (que ainda não tinha esse nome naquele momento).
Eu já tinha dito num artigo para o site Webinsider que a série me provoca uma espécie de nostalgia retroativa, pois embora eu já tivesse ouvido falar de Doctor Who desde a adolescência, a série só começou a ser exibida no Brasil a partir da nova, de 2005, quando eu já tinha 39 anos. Mas sinto um quentinho no coração e um fibrilar nos neurônios, que parecem criar configurações novas e inventar memórias de uma infância alternativa em que eu falava inglês e morava numa casinha modesta de dois andares em Marble Arch, em Londres. É uma sensação curiosa – e boa.
(e agora com licença, que vou começar as aventuras do Terceiro Doutor)
No post anterior, associei Mark Fisher a David Graeber e mencionei seu livro Dívida: os Primeiros Cinco Mil Anos, num breve pensamento sobre como o Capital nos controla. Dívida foi publicado em originalmente em 2011 (saiu aqui no Brasil em 2023, com tradução de Rogério Bettoni) e é de certa maneira um livro-irmão da sua obra póstuma, O Despertar de Tudo.
Neste último livro, escrito a quatro mãos com o arqueólogo David Wengrow, Graeber (que era antropólogo) apresenta uma visão diferente do passado das civilizações humanas. Ao contrário do que aprendemos na escola, onde somos levados a acreditar que a história da humanidade é sempre linear, ou seja, um caminho reto que leva de culturas menos avançadas para outras mais avançadas com o passar do tempo, os autores procuram mostrar, com diversos exemplos, que a história não caminha assim. Existem avanços e retrocessos, construções e desconstruções (e destruições), e processos políticos e sociais muito diferentes uns dos outros mas que coexistem no mesmo espaço de tempo.
Com Dívida a lógica é a mesma. A capa da edição brasileira afirma que o livro é “uma história alternativa da economia”. Não é exatamente isso, mas faz um certo sentido: Graeber entra fundo na questão da dívida e de seu perdão, analisando diversas sociedades desde a Mesopotâmia a fim de tentar entender o que é o dinheiro como conceito e como o conceito de dívida já existia antes mesmo da moeda física aparecer na história.
Graeber é de uma honestidade intelectual a toda prova. Ele nunca afirma cabalmente saber de tudo – uma crítica que ele faz a outros autores na introdução ao O Despertar de Tudo, ainda que em Dívida ele não faça isso. Mas não deixa de ser interessante observar que em introduções e prefácios os autores costumam justamente fazer um inventário dos pesquisadores que vieram antes e dos quais eles se sentem devedores (pensem em Isaac Newton e sua famosa frase sobre os ombros de gigantes), e Graeber opta por não fazer isso nesse livro.
Mas como antropólogo, Graeber acaba sendo de certa forma devedor a outros como Malinowski e Mauss, que foram os fundadores do ramo da antropologia econômica. E, como eles, Graeber é um excelente narrador: em mais de 500 páginas ele nos conta muitas histórias sobre a questão da troca (e de como o escambo nas sociedades primitivas não é bem do jeito que aprendemos nos livros) e da dádiva, entre outras coisas. Histórias aqui no melhor sentido: o que Graeber faz é procurar dissipar mitos e nos apresentar uma outra dádiva, a da dúvida; as coisas não foram do jeito tão certinho quanto sempre nos foi ensinado. Não se sabe exatamente o que havia antes, principalmente onde não sobreviveram registros – e é essa sinceridade brutal, essa rude franqueza que Graeber nos dá neste livro. Talvez por isso ele não faça tanto sucesso quanto autores como Yuval Harari, porque não nos dá certezas históricas quanto ao passado remoto. Mas Dívida nos dá a certeza de que praticamente tudo o que pensávamos saber a respeito de como o dinheiro e as dívidas surgiram no mundo está errado.
Pensando em escrever um artigo sobre Mark Fisher e David Graeber como dois suicidados pela sociedade, à maneira de Antonin Artaud. O primeiro literalmente; o segundo de modo figurado, mais pelo estresse cotidiano. Mas ambos são vozes neste deserto de ideias do século 21, vozes que são abafadas pela linguagem-linkedin de autores como Yuval Harari e Slavoj Zizek (ainda que este último seja um filósofo sério, apesar da questão da celebridade).
Mas sério: lendo Graeber agora em seu livro Dívida e relendo Realismo Capitalista de Fisher, não consigo parar de pensar em como absolutamente tudo o que nos cerca é regido pela sombra titânica do Capital, tão completamente que qualquer pensamento em contrário é dispensado como bobagem ou talvez loucura (Foucault, here’s looking at you kid), e todos seguem a lógica de Wittgenstein, que dizia que sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.
O que não se pode falar é que o capitalismo é um sistema indefensável e terrível para 99 por cento da humanidade, mas que ainda assim o seguimos por acreditar que “não há alternativa” (palavras pavorosas de Margaret Thatcher nos anos 1980). Eu também acredito que não há, pelo menos não nas próximas gerações – ainda mais com o fascismo nosso de cada dia, que saiu dos esgotos alguns anos atrás e não vai voltar para lá. Aos que dizem “não passarão”: eles já passaram.
Então o que nos resta? Dançar um tango argentino? Sim, isso: dançar muito, comer bem, beber e fumar o que se quiser, fazer muito amor que amor não faz mal, e se possível não vender sua alma, que ela pelo menos ainda não precisa ser vendida. Resta-nos documentar, registrar, deixar nossa marca no mundo, para que um dia arqueólogas futuras saibam que, eras antes, houve alguém que disse: eu não me conformo.
(PS: a Masterclass Mark Fisher foi cancelada porque Patrícia estava se sentindo mal desde quinta. Achamos que fosse Covid; o teste deu negativo, mas ela precisava descansar e por isso optei pelo cancelamento. Mas darei um curso online em breve.)