Este ano começou bem – mas fiz uma parada estratégica na semana passada por conta do retorno dos alunos à universidade, e aproveitei para colocar em dia os projetos de pesquisa, mas também a tradução e os papers acadêmicos. Já tenho (várias) coisas agendadas para este semestre, entre as quais resenhas e artigos, sem falar da entrega do livro novo, que ainda vai levar um tempinho. Aguardem, então, que em breve tem mais uma parte da breve história da ficção científica que estou escrevendo por aqui.
Sem categoria
uma breve história da ficção científica (parte 3)
A Revolução Industrial fomentou a criação de uma literatura popular no final do século 18, na forma dos folhetins. O século 19 nos trouxe variações disso na forma das dime novels americanas e dos penny dreadfuls britânicos (dos quais o cordel nordestino é um honrosíssimo descendente, aliás), e se encerrou com a criação por Frank Munsey em 1896, da primeira revista com papel feito da polpa da madeira, a Argosy. Esta, que seria de fato a primeira pulp magazine, deu origem a uma grande indústria, que durou até os anos 1950. Foi nessa indústria que surgiram praticamente todos os gêneros populares de ficção: a criminal, a de fantasia (aqui falo dos subgêneros sword-and-planet e weird fiction) e a ficção científica, claro.
Mais ou menos na mesma época da explosão das pulp magazines vão surgir duas mídias, ou melhor, duas novas utilizações de mídias que ainda eram razoavelmente recentes no começo do século 20: os quadrinhos e o cinema. As HQs verão surgir os heróis mascarados (como o Spirit, Batman e Superman, este não mascarado mas com uniforme de artista circense, como a maioria desses personagens); já o cinema verá o surgimento dos serials da Republic, isto é, aventuras serializadas semanais que causariam um impacto impressionante na cultura global. Os Perigos de Nyoka e Jim das Selvas, por exemplo, servirão como algumas das influências para a criação de Indiana Jones, de Lucas e Spielberg. Flash Gordon, embora criado primeiro para as tiras de jornal por Alex Raymond, rapidamente encontra seu espaço nos serials, e vai incentivar, entre outras coisas, a criação de Star Wars, por George Lucas (que na verdade queria ter feito uma adaptação de Flash Gordon mas não conseguiu os direitos do espólio de Raymond).
As primeiras histórias de sucesso nas pulp magazines se esforçam por seguir um modelo semelhante ao dos serials, não em termos de formato, mas de conteúdo. Como Isaac Asimov demonstra na série de antologias Before the Golden Age, diversos contos dessa época sintonizam esse zeitgeist pulp.
Um conto exemplar desse período é Tumithak of the Corridors, de Charles R. Tanner. Primeira de uma série de quatro novelas (duas das quais foram publicadas por Asimov ao longo dos três volumes dessa antologia), essa história é um misto de aventura na selva com a visão de mundo multicultural de Flash Gordon. Ambientada num futuro distante, onde, após uma bem-sucedida invasão alienígena, a humanidade se abrigou em gigantescas cavernas subterrâneas e regrediu a um estado tribal, o jovem Tumithak acaba liderando uma resistência entre todos os diversos povos (sub) humanos para derrotar os invasores.
A Golden Age, que viria a partir de 1940/41, seria o ponto de partida para os autores que viriam a se tornar mais conhecidos até hoje: Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein, os chamados “Big Three”. Aqui no Brasil os Três Grandes seriam um pouco diferentes, sem Heinlein mas com Ray Bradbury em seu lugar. Seria o momento das Grandes Ideias, com um texto apenas um pouco mais refinado que a geração da década anterior, mas com ideias muito mais “científicas” e menos fantasiosas no mau sentido – o que, aliás, rende ótimas discussões no meio até hoje. Afinal, o quanto de ciência um livro de ficção científica precisa de fato ter para ser considerado FC de fato? E isso importa?
Para isso teríamos que voltar às definições de ficção cientifica. Mas queremos?
Em 1998, o crítico de arte Frederico Morais lançou um livro chamado Arte é o Que Eu e Você Chamamos Arte. O livro consistia de nada menos que 801 citações definindo o conceito de arte. Foi uma proposta ousada de Morais, porque diversas citações eram diametralmente opostas e contraditórias. Alguém deveria publicar um livro semelhante apenas com definições de ficção científica, porque certamente não faltam.
Existe espaço para praticamente tudo, até para definições que não usam esse termo, como é o caso de “ficção especulativa”, proposto por Robert A. Heinlein na década de 1950 (e também pela editora Judith Merril), e atualmente defendido por ninguém menos que Margaret Atwood, ao dizer algum tempo atrás que O Conto da Aia não seria ficção científica porque se refere a algo possível e viável, ao passo que a FC seria o campo do impossível.
Não é o caso, como Ursula K LeGuin rebateu na mesma época: a FC pode tratar do impossível mas também do plausível (o totalmente impossível é o território da fantasia). A chamada ficção especulativa, segundo a própria Merril, consiste de:
“(…) histórias cujo objetivo é explorar, descobrir, aprender, por meio de projeção, extrapolação, analogia, hipótese e experimentação em papel, algo sobre a natureza do universo, do homem, ou ‘realidade’… Eu uso o termo ‘ficção especulativa’ aqui especificamente para descrever o modo que faz uso do ‘método científico’ tradicional (observação, hipótese, experimento) para examinar alguma aproximação postulada da realidade, introduzindo um determinado conjunto de mudanças – imaginárias ou inventivo – no contexto comum de ‘fatos conhecidos’, criando um ambiente no qual as respostas e percepções dos personagens revelarão algo sobre as invenções, os personagens, ou ambos.”
Na SFF Encyclopedia, John Clute explica melhor essa divisão:
“A ênfase em todas estas definições anteriores recai sobre a presença da “ciência”, ou pelo menos do método científico, como uma parte necessária da ficção. A definição de Merril, no entanto, é claramente (ao passar da própria ciência para a ideia de extrapolação) é bastante mais ampla, uma vez que incluiria histórias que retratam a mudança social sem necessariamente fazer muito alarido sobre o desenvolvimento científico; e, de fato, essas histórias estavam se tornando muito populares nas revistas durante as décadas de 1950 e 1960, período durante o qual Merril escreveu e editou a maior parte.”
Isso parece ter sido o pontapé inicial para a divisão posterior entre FC hard e soft, ou seja, aquela ficção que dava conta das ciências ditas duras, como astrofísica, e das ciências sociais e humanas, como sociologia e psicologia. Não é exatamente isso, mas quase (e esse quase já provocou muitas brigas e cismas na história do gênero). E Atwood nem de longe é a única pessoa que ainda hoje, passado o primeiro quarto do século 21, ainda insiste em se afastar do termo ficção científica: recentemente, numa entrevista concedida a Emad Aysha, o escritor argelino Wasini al-Araj, autor do livro distópico 2084: The Story of the Last Arab, afirmou veementemente que seu livro (publicado em 2015 e que o catapultou ao estrelato nas letras da Argélia) não é de modo algum ficção científica, precisamente porque o que ele colocou naquelas páginas não só era plenamente possível como já está acontecendo.
Ainda hoje, muitos pesquisadores brasileiros têm preferido o termo ficção especulativa, por achá-lo menos vago que FC. Contudo, embora a ficção científica seja, como definiu Damien Broderick em seu livro Reading by Starlight, um megagênero, capaz de englobar vários outros, não pode realmente ser chamado de “vago” em comparação com “ficção especulativa”. Tanto para objetivos acadêmicos quanto para fins de fidelidade documental, o termo aqui usado continuará sendo ficção científica. E vamos em frente.
Bibliografia deste capítulo:
AYSHA, Emad. Predicting from the Fragments – On Wasini Al-Araj. Entrevista concedida ao site Liberum em 5 de fevereiro de 2025. Acesso: https://theliberum.com/predicting-from-the-fragments-on-wasini-al-araj/?
BRODERICK, Damien. Reading by Starlight: Postmodern Science Fiction. Londres: Routledge, 1995.
NEVINS, Jess. Encyclopedia of Pulp Heroes. Edição digital do autor, 2017. Acesso em: https://www.amazon.com.br/Encyclopedia-Pulp-Heroes-English-ebook/dp/B06Y2KVBXS/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=254EXMV3XF6ZK&dib=eyJ2IjoiMSJ9.jCtFVuNhn8121-lgbEppr9Xz-LfJi-I-CDs1I5EvKHA.RVHYFzxdqXRWrSvpgDfxXu9pXqavAT61qhwiFO0awVY&dib_tag=se&keywords=jess+nevins+pulp+heroes&qid=1739363788&sprefix=jess+nevins+pulp+heroe%2Caps%2C276&sr=8-1
CLUTE, John. SFF Encyclopedia. Verbete Definitions of SF. Acesso em: https://sf-encyclopedia.com/entry/definitions_of_sf
MORAIS, Frederico. Arte é Aquilo que Você e Eu Chamamos Arte. Rio de Janeiro: Record, 1998.

uma breve história da ficção científica (parte 2)
A história da ficção científica como gênero de mercado se assemelha em alguns pontos à história do cinema. Embora elas tenham décadas de diferença entre seus pontos de origem – consideramos que o cinema como o conhecemos hoje começa a nascer em 1895 com a exibição pública dos filmes dos irmãos Lumière em Paris, e a FC propriamente dita nasce em 1926 – é possível dizer que uma mídia influenciou a outra, ou no mínimo que o cinema influenciou a ficção cientifica desde antes de ela ter esse nome.
Quando H. G. Wells escreve sua novela científica A Máquina do Tempo, pelo menos sua última versão (que é de 1895, mas a história já havia sido publicada em 1890 numa versão menor, com o título The Chronic Argonauts) aponta uma possível inspiração cinematográfica de Wells para usado para descrever a passagem acelerada do tempo, segundo Adam Roberts:
“Não mais um visionário adormecido ou em transe, uma sacerdotisa em uma caverna ou um santo em uma rocha, seu vidente era um homem no selim de uma espécie de bicicleta, customizada em uma oficina suburbana, parte aparelho de rádio de cristal, parte mecanismo de relógio, parte trilhos de trem com comutação de pontos, parte câmera de cinema [grifos nossos] – a primeira Máquina do Tempo da modernidade.”
Primeiro grifo: sabemos, pela breve descrição acima (bem diferente daquela usada nas adaptações de 1960 e 2002 e também no filme Um Século em 43 Minutos (Time After Time, de Nicholas Meyer), que ela tem um único assento, ou “saddle”, no original – o que poderia ser uma sela de cavalo, mas na verdade é um selim de bicicleta; Wells era um ciclista consumado, ou mais do que isso, um ciclo-ativista avant la lettre, alguém que já defendia o uso de bicicletas muito antes de isso virar moda. em 1895, ele e sua segunda esposa, Jane, se mudaram para Woking, em Surrey, e aprenderam a andar de bicicleta. Wells se apaixonou imediatamente por esse meio de transporte. Em sua autobiografia, ele diz:
“A bicicleta era a coisa mais rápida nas estradas naquela época (…) Ainda não havia automóveis e o ciclista tinha uma nobreza, um senso de aventura magistral, que agora desapareceu completamente dele.’
O período muito breve em Woking seria muito prolífico em termos de produção: ele escreveu nada menos que três livros ali: A Guerra dos Mundos, O Homem Invisível e The Wheels of Chance, este último um romance cômico (e quase autoficcional) sobre um jovem que se apaixona por uma moça durante um longo feriado ciclístico e fantasia uma vida diferente da que leva.
Woking ficaria famosa por ser o primeiro lugar onde os marcianos pousaram em A Guerra dos Mundos. Já a bicicleta seria imortalizada (em parte, ao menos) em A Máquina do Tempo. Embora a máquina não tenha pedais até onde sabemos (seu método de propulsão nunca é explicado, mas ele deixa claro que, de algum modo, os dois cristais que servem de alavanca a máquina não pode funcionar), ela é perfeitamente capaz de avançar ou retroceder na quarta dimensão, explicada pelo Viajante (Wells não dá nome ao protagonista) como sendo o tempo.
Essa abordagem inusitada de Wells levaria a uma das imagens mais fortes do livro, e que seria fielmente adaptada pelas duas versões para o cinema: o momento da viagem para o futuro, em que a paisagem ao redor da máquina começa a acelerar – como um filme em alta rotação.
“A vaga sugestão do laboratório pareceu desaparecer de mim e vi o sol saltando rapidamente pelo céu, saltando a cada minuto, e a cada minuto marcando um dia. Supus que o laboratório tivesse sido destruído e eu tivesse saído para o ar livre.”
e:
“Vi árvores crescendo e mudando como nuvens de vapor, ora marrons, ora verdes; eles cresceram, se espalharam, estremeceram e faleceram. Vi edifícios enormes erguerem-se, fracos e claros, e passarem como sonhos. Toda a superfície da terra parecia mudada – derretendo e fluindo diante dos meus olhos.”
Embora isso não seja mencionado na biografia de Adam Roberts, essa descrição faz sentido se imaginarmos que em algum momento daquele ano Wells teve contato com o cinema, através dos primeiros filmes dos irmãos Lumière, ou de Georges Meliés. Claro, também podemos imaginar que as imagens que derretem e fluem diante dos olhos do Viajante podem ser atribuídas à sensação que um ciclista tem ao pedalar em alta velocidade; mas não é nem um pouco improvável que o cinema tivesse tido alguma espécie de influência sob Wells.
Bibliografia deste capítulo:
ROBERTS, Adam. H. G. Wells – A Literary Life. Suíça: Palgrave Macmillan, 2019.
WELLS, H. G. The Time Machine. Londres: Penguin Classics, 2007.

a lista de filmes continua: filmes vistos em janeiro/2025
No começo do ano eu disse que não tinha certeza se continuaria a fazer listas ou não. Por via das dúvidas, continuei anotando as informações sobre os filmes – e outro dia mesmo, me deparei com uma lista de livros que fiz em 2001 num dos meus primeiros blogs, incrivelmente ainda no ar, e me dei conta de que eu sempre gostei mesmo de listas, então deixo de bobagem e sigo publicando por aqui enquanto eu tiver vontade, e vontade não está faltando. Foram 24 filmes, bem menos que em janeiro de 2024, quando vi 41 filmes, soma que nunca mais foi igualada (e não deverá sê-lo tão cedo). Vamos à lista de janeiro:
Miller’s Crossing – Joel Coen
The Homeland of Electricity – Larisa Shepitko
It’s Not Me – Leos Carax
Clube dos Vândalos – Jeff Nichols
Mulher de Verdade – Alberto Cavalcanti
O Truque do Amor – Umberto Carteni
Christopher Reeve, le Superman Éternel – Phillipe Guedj e Phillipe Roure
Salvo pela pizza – Alessio Lauria
O Preço da Herança da Vovó – Giovanni Bognetti
Party Girl – Daisy von Scherler Meyer
Lawrence da Arábia – David Lean
A Garota Francesa – James A Woods, Nicolas Wright
Twin Peaks- Fire Walk With Me – David Lynch
The True Adventures of Raoul Walsh – Marilyn Ann Moss
Austenland- Jerusha Hess
Star Trek Section 31 – Olatunde Osunsanmi
Feministas: o Que Elas Estavam Pensando? – Johanna Demetrakas
High Sierra – Raoul Walsh
Andança: os encontros e as memórias de Beth Carvalho – Pedro Bronz
Passage to Marseille – Michael Curtiz
Becoming Hitchcock: the Legacy of Blackmail- Laurent Bouzereau
Voyage to Metropolis – artem demenok
Nicholas Nickleby – Douglas McGrath
The Roaring Twenties – Raoul Walsh
Estatísticas:
Dos 24, revi dois: Party Girl (que eu tinha visto uns vinte anos atrás na TV a cabo) e Lawrence da Arábia. O clássico de David Lean é um dos meus top 3 (os outros são Casablanca e Blade Runner). Eu nunca havia revisto o filme cult de Parker Posey até semanas atrás, mas o Criterion Channel passou um minifestival de filmes dela e resolvi cair dentro. Já Lawrence é um velho conhecido: perdi a conta de quantas vezes vi. É um daqueles que eu preciso ver pelo menos uma vez por ano.
Com Patrícia eu vi cinco filmes, quase todos italianos; fazemos isso sempre que possível para lembrar da Itália e da língua italiana, que nos são tão caras. O Truque do Amor, Salvo Pela Pizza e O Preço da Herança da Vovó são todas comédias razoavelmente inteligentes e bem engraçadas, dá pra ver sem susto (todas na Netflix). A Garota Francesa tem o título enganoso, tanto em português quanto no original em inglês: a garota na verdade é canadense, ainda que do lado francês do país, o que naturalmente acaba gerando confusão com seu namorado americano (Zach Braff, de Scrubs, ainda vivendo o mesmo tipo de personagem, o que só é aceitável porque ele é simpático). Foi o menos divertido de todos: é o tipo de comédia romântica que não faz mais sentido para mim e Patrícia porque sempre nos perguntamos por que diabos pessoas que já vivem juntas há um tempo precisam guardar tantos segredos, coisas que nem faz mais sentido esconder? A resposta que nos vêm à mente é o puritanismo americano, igualmente ultrapassado mas que infelizmente ainda resiste. O que compensou foi o quinto, Feministas: o Que Elas Estavam Pensando?, do qual vou falar mais embaixo.
Idiomas: Este mês foi bom em diversidade linguística: dos 24, 15 foram em inglês, 3 em italiano, dois em francês, dois em português (o longa restaurado Mulher de Verdade, de Alberto Cavalcanti, que vi de graça no streaming do Festival de Locarno, e o documentário Andança: os encontros e as memórias de Beth Carvalho, que me emocionou muito e me fez cantar junto tantos sambas de Cartola, Nelson Cavaquinho e Arlindo Cruz), um em russo e um em alemão.
Já em filmes de/por mulheres, não fui muito bem. Foram cinco filmes somente: As ficções The Homeland of Electricity, da soviética Larisa Shepitko, Party Girl, de Daisy von Scherler Meyer, Austenland, de Jerusha Hess, e os documentários The True Adventures of Raoul Walsh, de Marilyn Ann Moss, e Feministas: o Que Elas Estavam Pensando?, de Johanna Demetrakas.
Os que mais gostei:
. Feministas: o Que Elas Estavam Pensando? – este filme foi que o mais nos impactou. O documentário de 2018 aborda o trabalho da fotógrafa Cynthia MacAdams, que publicou em 1977 um livro chamado Emergence, com fotos de mulheres de variadas idades e grupos sociais, e entrevista algumas das fotografadas, entre as quais Jane Fonda, Lily Tomlin, Judy Chicago, Laurie Anderson e Phyllis Chesler. É um documento de peso sobre o feminismo dos anos 1970 e suas lutas, e o que se ganhou e se perdeu em mais de quarenta anos. Na Netflix.
Passage to Marseille – filmaço de guerra dirigido por Michael Curtiz e com metade do elenco principal de Casablanca: Bogart, Claude Rains, Sydney Greenstreet, Peter Lorre e até mesmo Corinna Mura, a cantora do Rick’s Café Americain, que aqui faz uma ponta rápida. Bogart faz um jornalista francês preso (a la O Conde de Monte Cristo) por um crime que não cometeu e enviado para a IIha do Diabo, de onde foge para se alistar na luta contra os alemães na II Guerra. É bem mais movimentado que Casablanca e conta com o recurso de histórias dentro de histórias, o que me agrada bastante. Não é melhor que o meu favorito da dupla Bogart/Curtiz, mas me surpreendeu positivamente, e é outro que vou rever sempre que puder.
Corram que o filme ruim vem aí:
Star Trek Section 31 – É a primeira vez na minha longa história de fã da franquia Star Trek que vejo um produto dela ser unanimidade absoluta: não vi um fã sequer que pudesse dizer algo de bom desse filme. Não costumo descer ao nível do xingamento em se tratando de produtos culturais, mas se um filme na história de ST e do cinema em geral pode ser considerado uma merda absoluta, é esse. Basta dizer que foi prometida uma coisa (um filme sobre a mal-afamada Seçao 31, a black ops do universo de Star Trek, com agentes secretos que fazem o trabalho sujo para a utopia da Federação funcionar) e o que foi entregue não teve nada a ver com isso: uma comedinha ruim, quase uma chanchada, com excesso de truques de câmeras que hoje não agradam nem aos fanboys mais empedernidos, e onde só se salvou (e mesmo assim não o tempo todo) Michelle Yeoh, cuja personagem estava mal escrita e foi pessimamente aproveitada. Se quiser conferir (mas eu aconselho que não), Paramount.

uma breve história da ficção científica (parte 1)
Uma história não se faz apenas com fatos e datas; esse é o método positivista, pelo qual a minha geração aprendeu na escola um desfile interminável de acontecimentos e nomes, sem que lhe fossem fornecidos elementos de reflexão para o contexto. Foi assim que aprendi, entre outras coisas, que em 1964 aconteceu no Brasil uma revolução. Mas era a década de 1970, e ainda estávamos no olho do furacão dos hoje chamados (com razão) Anos de Chumbo. Só anos depois eu viria a saber que na verdade a tal revolução havia sido de fato um golpe, e também tomei conhecimento das torturas (e conhecer pessoas que foram torturadas, mas esta é outra história), e entendi que os atores políticos desempenhavam papeis bem diferentes daqueles atribuídos pela história oficial.
Por que começo o post assim? Porque a História, assim mesmo com H maiúsculo, não é uma ciência exata, e também não é neutra. Com relação à ficção científica ocorre o mesmo. Desde o começo do gênero – e é aí que a coisa fica complicada, porque até hoje não se consegue apontar com absoluta precisão quando o gênero nasceu. Segundo Brian Aldiss, em seu seminal Trillion Year Spree, publicado em meados dos anos 1980, o marco inicial do gênero seria Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1818. Os pesquisadores brasileiros de um modo geral ainda concordam com isso, mas os britânicos hoje em dia tendem a apontar O Mundo Resplandecente, de Margaret Cavendish, de 1666, como a gênese do que hoje entendemos como ficção científica. Mas a verdade, no duro, no duro, é que ninguém sabe.
E qual é a verdade, afinal?
Existem muitas histórias da ficção científica. A mais conhecida é justamente a narrativa de caráter positivista, muito usada por leitores em geral, fãs e influenciadores ligados ao gênero, que simplesmente elenca nomes, datas e obras, sem contexto ou com um mínimo de contexto, com repetições de dados sobre as quais muitas vezes os repetidores não têm maior conhecimento para fazer uma análise.
Mas já começam a surgir no Brasil uma série de grupos de pesquisa ligados de alguma forma à ficção científica que propõem novas narrativas, todas elas válidas enquanto correntes que se complementam. Existem grupos ligados às utopias e distopias, ao fantástico, a um novo movimento denominado fantasismo, e também a uma visão mais tradicional da ficção científica. No meu grupo, o Observatório do Futuro, ligado ao Departamento de Comunicação da PUC-SP, acolhemos todas essas narrativas e acrescentamos mais um olhar: o decolonial. Anos atrás, criei um curso chamado Ficção Científica no Campo Político, primeiro presencial, depois online em modo síncrono e hoje assíncrono no site Hotmart, onde explorei essa narrativa, a saber: do que realmente tratava (e em certa medida ainda trata) a ficção cientifica mais conhecida, a anglo-americana, não só em termos de conteúdo, mas em termos de quem a fazia? Afinal, eram só homens cis hetero brancos, ou foi isso o que nos levaram a crer com o passar do tempo?
Ao longo desse curso, examinei os apagamentos, tanto de mulheres (a quantidade de autoras que sempre existiram e que hoje foram relegadas ao esquecimento é assustadoramente grande) quanto de pessoas negras (não só como autores mas como personagens) e LGBTQ+. Por que fiz isso? Não foi para colocar em dúvida a qualidade do trabalho dos homens brancos, mas porque eles já têm essa qualidade como garantida por seu privilégio. É examinando esse privilégio que podemos construir uma história mais inclusiva da ficção científica, não só na esfera anglo-americana (que ao fim e ao cabo será o foco destes posts, porque também eu como leitor e fã tive minha formação com as obras criadas nesse mercado), como também em outros países, como por exemplo China, Índia, Nigéria e Palestina, sem deixar de fora a América Latina e, claro, o Brasil.
Então, como escrever uma história da ficção científica desde 1926 (como eu me propus a fazer no post zero desta série), a partir de um termo criado por questões mercadológicas e inicialmente restrito aos EUA mas que em pouco tempo assumiu uma dimensão tão grande a ponto de tomar de assalto o resto do mundo? Lembrando que o mesmo aconteceu com o rock, nascido nos EUA e exportado para o resto do planeta, onde sofreu adaptações e transmutações em vários estilos e subgêneros, e que de algumas décadas para cá teve finalmente a influência do blues negro reconhecida e – isto é importante – aceita pelos brancos que ainda dominam o meio, tanto na execução quanto na pesquisa teórica. Como todos os pesquisadores sérios apontam, a ficção científica teve precursores fantásticos praticamente em todo o planeta séculos antes.
Num evento no Rio de Janeiro em 1988, Charles N. Brown (criador e então editor da Locus Magazine, a Publishers Weekly do mercado da literatura fantástica), o escritor Frederik Pohl e a pesquisadora Elizabeth Anne Hull afirmaram que, em todos os países onde haviam estado durante aquele tour (particularmente na América Latina e na África), ficaram sabendo que existiam muitos precursores da ficção científica – ficaram sabendo é a expressão mais adequada, visto que nos países em questão todos conheciam esses autores. Só os estadunidenses, claro, não os conheciam, pois eles criaram a sua própria versão dessa história, que exclui e apaga, muitas vezes sem intenção. Mas também sem grande interesse de descobrir o que existe para além de suas fronteiras. (O que está mudando bastante nos últimos anos, mas isso é assunto para outro post.)
Não deixa de ser interessante, entretanto, que o criador, ou melhor dizendo, o fomentador da ficção científica como a conhecemos tenha sido um estrangeiro em terras americanas. Hugo Gernsback nasceu no minúsculo Luxemburgo, um país com uma área de 2.586 km2 (isso não chega ao dobro do território do município de São Paulo, só para fins de comparação), emigrou em 1904 para os Estados Unidos, com vinte anos de idade, criou uma das primeiras emissoras de rádio dos EUA em 1925 e no ano seguinte, já tendo publicado diversas revistas ligadas a vários campos da ciência, de engenharia elétrica a sexologia (foi dele a primeira revista sobre o assunto nos EUA), resolveu criar uma revista de divulgação científica por intermédio da ficção – algo para o qual ele já tinha até um neologismo: scientifiction.
Apesar da palavra diferente e bem moderna para os padrões da época, Gernsback de algum modo deve ter sentido que o termo não caiu no gosto dos leitores, pois algumas edições depois retificou o termo e o batizou com seu nome mais conhecido: science fiction.
Volta e meia leitores e influenciadores do gênero apontam que o termo science fiction já existia antes, e é verdade. Essas duas palavras teriam sido reunidas numa expressão pela primeira vez quase um século antes de Gernsback, em 1851, pelo poeta e editor William Wilson, em seu livro A Little Earnest Book upon a Great Old Subject: With the Story of the Poet-Lover. O termo (que na época era hifenizado, Science-Fiction) foi usado por Wilson num trecho em que ele declarava sua crença de que as descobertas da ciência poderiam trazer algo novo e vital para a literatura:
. . . “A ficção na poesia não é o reverso da verdade, mas a sua semelhança suave e encantadora.” Ora, isto se aplica à science fiction [grifo nosso], na qual as verdades reveladas da ciência podem ser dadas, entrelaçadas com uma história agradável que pode ser poética e verdadeira – circulando assim um conhecimento da Poesia da Ciência, vestida com uma roupagem da Poesia da Vida.
Brian Stableford compara essa afirmação ao editorial de Gernsback sobre sua proposta e conclui que elas se parecem bastante:
“…com um romance encantador mesclado com fatos científicos e visão profética”, que sua ficção seria uma “vestimenta para tornar mais atraentes ‘as revelações de uma imaginação racional’.”
Contudo, não se sabe se Gernsback leu Wilson ou se simplesmente os dois chegaram à mesma conclusão, o que parece bastante aceitável. Na verdade, é de se espantar que mais pessoas não tivessem chegado a essa conclusão. E aí entra o pensamento decolonial, com o seguinte questionamento: e se outras pessoas em outros países não-anglófonos EFETIVAMENTE chegaram à mesma conclusão, em virtude da Revolução Industrial, mas essas conclusões foram ignoradas ou até mesmo aceitas na época mas esquecidas pouco depois por se tratarem de pensamentos advindos da periferia dos impérios (e posteriormente do capitalismo)? Sabemos que autores brasileiros do século como João do Rio e Machado de Assis se aventuraram pelo território do fantástico e também mencionaram as novas tecnologias de suas épocas, seja elogiando-a ou a ironizando. Mais sobre isso em outro post.
Bibliografia deste capítulo:
ALDISS, Brian, WINGROVE, David. Trillion Year Spree: The History of Science Fiction. Londres: Gollancz, 1986.
STABLEFORD, Brian. Opening Minds: Essays on Fantastic Literature. San Bernardino: Borgo Press, 2007.

uma breve história da ficção científica (parte 0)
Já faz um tempo que eu venho pensando em escrever um texto para comemorar os cem anos da ficção científica, que já estão chegando. Não o sci-fi (que, a rigor, é um termo para o audiovisual), nem o fantástico ou gêneros semelhantes, mas a FC mesmo, a Ficção Científica enquanto-a-nível-de rótulo mercadológico, criado por Hugo Gernsback há quase cem anos. Em 1926, esse engenheiro de Luxemburgo radicado nos EUA criou a primeira revista pulp dedicada a esse gênero que ele mesmo inventou. Embora revistas de aventuras fantásticas já existissem (a Weird Tales, que viria a publicar H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e Robert E. Howard, havia sido criada quatro anos antes, em 1922), ainda não existia nada que desse conta do fantástico tecnológico, por assim dizer. Talvez por isso mesmo Gernsback, ao publicar a edição de estreia da revista Amazing Stories (Histórias Incríveis, numa tradução literal) em abril de 1926, escreveu o seguinte no editorial:
“Por ‘scientifiction‘ quero dizer o tipo de história de Júlio Verne, HG Wells e Edgar Allan Poe – um romance encantador misturado com fatos científicos e visão profética… Esses contos incríveis não apenas são uma leitura tremendamente interessante – eles são sempre instrutivos. Eles fornecem conhecimento… de uma forma muito palatável… Novas aventuras retratadas para nós na ciência de hoje não são de todo impossíveis de serem realizadas amanhã… Muitas grandes histórias científicas destinadas a ser de interesse histórico ainda estão para ser escritas … A posteridade apontará para eles como tendo aberto um novo caminho, não apenas na literatura e na ficção, mas também no progresso.”
A história por trás da palavra scientifiction vai ficar para o próximo post. Por ora, basta dizer que, como a própria citação acima entrega, Gernsback deixa muito claro as referências que utiliza na defesa desse novo gênero: os romances científicos de Wells, as viagens maravilhosas de Verne e as narrativas extraordinárias de Poe. Das coisas nascem coisas, como dizia Bruno Murari; ou seja, tudo o que existe veio de algo que o precedeu. Parece óbvio, mas em tempos de excesso de informação e escassez de curadoria, não custa lembrar. O pesquisador britânico John Clute, um dos criadores do maior repositório de termos do gênero, a The Science Fiction Encyclopedia, costuma falar em algo como a Grande Conversação. Esse termo se refere à transmissão no tempo de conceitos que se atualizam, mas que sempre permanecem inteligíveis para quem os lê. Um exemplo seria o robô, conhecido no século 19 com o nome de autômato, e que depois ganharia o nome atual devido à peça de teatro R.U.R., de Karel Capek, e depois também seria chamado, dependendo dos autores, de androide (ou ginoide) ou replicante, em Blade Runner, ou moravecs em Ilium, de Dan Simmons, ou o Murderbot dos livros de Martha Wells, mas todos significando a mesma coisa: um ser artificial semelhante ao humano. E basta o acesso a um desses termos para que a maioria dos leitores do gênero (e mesmo muitos leitores não acostumados aos protocolos narrativos da ficção cientifica) saibam do que está se falando.
Da mesma forma que com os termos, os gêneros também passariam pelo mesmo processo, mas de um modo mais peculiar, associados em grande parte a um autor específico. Os chamados romances científicos são o território por excelência de H. G. Wells a partir de 1895, com sua novela A Máquina do Tempo, embora já tivesse sido usado em 1879 para definir o conjunto da obra de Júlio Verne na American Cyclopædia. A weird fiction, que engloba horror, fantasia e ocasionalmente elementos futuristas ou alienígenas, já existia com esse nome desde o lançamento da revista Weird Tales, porque seu primeiro editor, Farnsworth Wright, conferia esse rótulo às histórias ali publicadas. O chamado romance planetário costuma ter sua origem associada ao livro Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs, publicado em 1817, mas duas inspirações bastante explícitas desse livro foram publicadas respectivamente em 1880 (Across the Zodiac, de Percy Greg) e 1905 (Lieu. Gullivar Jones: His Vacation, de Edwin Lester Arnold), ambas histórias de aventura que apresentam militares americanos sendo transportados de modos incomuns para Marte. Portanto, como vemos, é difícil encontrar um ponto de origem exato para esse tipo de literatura.
Por isso, é importante deixar claro uma coisa: tudo é narrativa. Cada vez que alguém escreve um livro de história, o faz com o conhecimento da época e com seus próprios vieses. Na série de textos que estou propondo aqui, a ideia é concentrar o foco no período entre 1926 e agora – entendendo o “agora” como o momento do último post da série, que poderá ser escrito no fim do ano ou no começo de 2026. Mas sei que a ficção científica (e aí sim, incluindo o sci-fi, termo criado por Forrest J. Ackerman para o audiovisual, a fim de diferenciá-lo da SF, Science Fiction, que seria exclusivamente literária) começa muito antes, disso se é que é possível fincar uma bandeira no tempo e dizer com certeza absoluta quando se dá o nascimento desse gênero tão vasto. No artigo On the Origins of Genre, o pesquisador britânico Paul Kincaid afirma justamente o contrário. Ele já começa chutando o pau da barraca acadêmica, dizendo:
“Não existe um ponto de partida para a ficção científica. Não existe um romance que marque o início do gênero. Todos nós tentamos identificar o texto primordial, a fonte de onde Heinlein, Ellison, Gibson, Ballard, Priest, Le Guin e uma série de outros fluem. Brian Aldiss é famoso por ter dado essa distinção a Frankenstein, de Mary Shelley, e sua sugestão foi aceita por vários comentaristas posteriores. Outros fortes candidatos incluem H.G. Wells, ou Edgar Allan Poe, ou Júlio Verne. Gary Westfahl nomeou Hugo Gernsback como o verdadeiro pai da ficção científica. Outros ainda (inclusive eu) voltaram à Utopia de Thomas More.
Estamos todos errados.
Temos que estar errados, porque não existe nenhum texto ancestral que possa conter, mesmo em forma nascente, tudo o que identificamos como ficção científica.”
Respeito muito Kincaid e tendo a concordar com ele (e mais para diante vou referenciá-lo em outros textos), mas o objetivo aqui é outro. Me parece evidente que não se pode criar uma cadeia de elementos tão direta e inequívoca vinculando textos como Frankenstein, A Máquina do Tempo e Duna, se formos levar em conta os enredos e os tipos específicos de invenções ou situações ficcionais desses livros. Contudo, como eu disse bem no começo deste post, se aplicarmos o critério do fantástico tecnológico, podemos sim traçar pontos de contato entre estas e muitas outras histórias. Mas fazemos isso porque é isso que os humanos sabem fazer: criar vínculos entre elementos e uma narrativa que a justifique. Às narrativas insustentáveis damos o nome de teorias da conspiração; as narrativas coerentes, chamamos de História.
Este post é o começo de uma narrativa que se pretende bastante coerente sobre a ficção científica como gênero mercadológico, com ênfase na literatura mas também com alguns mergulhos no cinema e em séries de TV e streaming. Aqui a ideia é apresentar aos leitores deste blog um contexto mais aprofundado sobre o assunto do que costuma se encontrar em redes sociais e newsletters atualmente, tentando (como eu já vinha fazendo no Terra Incognita, meu canal de YouTube, e no podcast Viva SciFi, de Tiago Meira, onde sou co-host) sair do convencional e indicar textos (de ficção e não-ficção) pouco conhecidos no Brasil.
Bibliografia deste capítulo:
KINCAID, Paul. On the Origins of Genre. In: Extrapolation 44(4): p. 409-419. Liverpool: Liverpool University Press, Janeiro de 2003
WHYTOFF, Grant (ed). The Perversity of Things: Hugo Gernback on Media, Tinkering, and Scientifiction. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2016.

sobre David Lynch e nossa condição
Acabo de ver no Bluesky que David Lynch morreu. Ainda jovem para os padrões de hoje: 78 anos. Teve uma vida longa e uma filmografia idem, mas fica aquela sensação de que ele poderia ter feito muito mais. (Pensando, por exemplo, em Manoel de Oliveira, que viveu até a incrível idade de 106 anos e realizou 32 longas e quase a mesma quantidade de curtas e documentários.) Lynch fez apenas dez longas, o que me surpreendeu quando fui pesquisar agora, porque para mim ele era tão imenso que parecia ter feito muito mais.
Mas eu fico pensando é na qualidade das narrativas dele. Lynch era um David que, igual ao outro (o Bowie) não tinha medo de face the strange, encarar o estranho, e jogar esse estranhamento para nós. Eraserhead, Blue Velvet, The Lost Highway, Mulholland Drive e até mesmo sua versão rejeitada de Duna: tudo isso e mais outros tantos filmes (mesmo O Homem Elefante, que é mais “quadrado” formalmente) onde ele fez o que quis, do jeito que quis, sem nenhuma preocupação com a indústria. Ele faz parte de um grupo de artistas – cineastas, escritores e outras mais – que se interessam mais pela forma que pelo conteúdo. Ainda vou falar mais sobre isso, mas hoje é um dia de luto e reflexão. E de assistir David Lynch.

Oito anos sem Mark Fisher
Volta e meia comento, nas redes ou na faculdade com meus alunos, que tivemos duas perdas imensas nos últimos anos, de intelectuais que morreram muito cedo e ainda teriam muito que contribuir para a compreensão do passado e do presente da nossa sociedade. Um deles é David Graeber, autor de Dívida e co-autor de O Despertar de Tudo (que já recomendei entusiasticamente aqui), que morreu subitamente de pancreatite em 2020. O outro nos deixou há oito anos por vontade própria: Mark Fisher, autor de Realismo Capitalista e Fantasmas da Minha Vida.
Tive a oportunidade de traduzir seu último livro, Desejo Pós-Capitalista, e a Autonomia Literária anunciou ontem que o livro já vai entrar em pré-venda. Desejo Pós-Capitalista é a transcrição de aulas que ele estava ministrando na Goldsmiths University de Londres pouco antes de sua morte. Foram cinco aulas de um total de quinze: parece pouco, mas as aulas são muito claras no sentido de didatismo, sem subestimar a inteligência de seus alunos (e, por extensão, a nossa). Fisher aborda desde uma explicação sobre pós-capitalismo (aula 1) até o que ele chama de “marxismo libidinal”, passando por contracultura, consciência de classe e a questão sindical, com referências a autores como Lukacs, Marcuse e Lyotard.
Quanto às aulas que não chegaram a ser dadas, ao final do livro, um apêndice nos fornece tema e conteúdo de cada uma delas, o que ao mesmo tempo satisfaz nossa curiosidade quanto ao que ele abordaria e nos entristece, porque as análise de Fisher nunca eram menos que complexas, e ficamos aqui pensando no tanto que ele ainda teria a contribuir para o pensamento da esquerda, principalmente no momento em que estamos vivendo. Fisher é um dos meus focos de pesquisa: em 2024 ministrei um curso introdutório sobre sua obra, e estou trabalhando em outro, justamente sobre as aulas que nunca foram dadas. Vamos ver se sai ainda este ano.

Por um vida menos digital
Não, não sou nenhum ludita. Não odeio o digital, pelo contrário: passei grande parte dos últimos trinta anos criando blogs e me metendo em todas as redes sociais que podia. Fiz mestrado e doutorado tendo como tema a ficção científica no contexto da cibercultura, e grande parte da minha carreira acadêmica girava e gira em torno da cultura pop vinculada às redes sociais e aos dispositivos móveis.
Mas tudo tem um fim, e talvez estejamos chegando num momento de decisão com relação às redes sociais. Eu deixei o Twitter antes mesmo de virar X, pouco depois que Elon Musk comprou aquela rede e anunciou seus planos de retirar todo e qualquer bloqueio ao discurso de ódio alegando uma liberdade de expressão que, sabemos, está longe de ser o objetivo real dele.
Hoje, com a notícia de que Zuckerberg vai acabar com a checagem de fatos na META (ao qual pertencem Facebook, Instagram e Threads), parece que acabamos de cair no alçapão no fundo do poço. As redes dele já não são confiáveis há muito tempo; inclusive estou lendo um livraço da jornalista filipina Maria Ressa que fala justamente de como o FB tem contribuído para a expansão das ditaduras no mundo (aguardem resenha). Agora acho que está na hora de deixar as redes da META.
Claro, não vai ser fácil. Entramos numa roubada federal quando nos deixamos levar pelas redes, a ponto de ficarmos meio perdidos mesmo. Não importa o quanto você sinalize virtude dizendo que não liga para nada disso, o fato é que quase todos nós nos tornamos extremamente dependentes dessas redes, seja para socialização (na pandemia elas foram de grande ajuda), seja para informação (e, de um modo ou de outro, elas ainda conseguem nos dar informações relevantes e verdadeiras) e – aqui penso no meu caso em particular – para divulgar meus livros de ficção e artigos acadêmicos.
O que fazer agora? Dá pra abandonar todas essas redes? É desejável? Não tenho resposta pronta para isso. O que posso fazer é pensar alternativas: existem redes que ainda são mais sadias, digamos, como o Bluesky e o Mastodon. Mas o que eu gostaria mesmo era, sem saudosismo, de me tornar um pouco menos digital e navegar por este mundo de cultura e informação sem aderir em excesso às redes. Não sei ainda como, mas este blog vai ver mais atividade que no ano passado. Sigamos.
A vertigem das listas: livros lidos em 2024
Conforme escrevi em um post no começo do ano passado, eu já fazia listas de livros desde pelo menos 1984 (embora eu ache que comecei a fazer isso alguns anos antes), mas sempre em cadernos, porque a internet ainda não existia, claro. Tenho em algum lugar do meu HD externo listas de vários anos, que em algum momento pretendo encontrar e postar aqui, mas não agora. Hoje posto a lista de livros que li ao longo do ano passado. Uma tradição que inaugurei na lista passada foi a de fazer duas listas: a de livros livros na íntegra e livros que não terminei por diversos motivos. Foi uma lista alentada: 45 livros finalizados e 37 por terminar. Este ano a lista é bem menor, em parte pelo desafio cinéfilo a que me propus em 2024, em parte porque dediquei metade do ano à finalização do meu livro mais recente, a aventura steampunk O TORNEIO DE SOMBRAS. Vamos a ela (lembrando que, como na lista anterior, os meus livros preferidos estão marcados em negrito, e a ordem aqui apresentada é de leitura):
Livros lidos na íntegra:
- Caminhando com os Mortos – Micheliny Verunschk
- Viagem ao Centro da Terra – Jules Verne
- Irmãs da Revolução (ed. Ann Vandermeer e Jeff Vandermeer)
- 8 Billion Genies – Charles Soule e Ryan Browne
- Asterios Polyp – David Mazzuchelli
- Saga – book 11 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples
- O Instante Certo – Dorrit Harazim
- The Three-Body Problem – Cixin Liu
- Me and Mr. Jones – Suzi Ronson
- Tudo sobre o amor – bell hooks
- A Prateleira do Amor- Valeska Zanello
- A gente mira no amor e acerta na solidão- Ana Suy
- Mente Zen, Mente de Principiante – Shunryu Suzuki
- Web of Angels – John M. Ford
- Too Like the Lightning – Ada Palmer
- Tarso de Castro – Tom Cardoso
- Mountains of the Mind – Robert MacFarlane
- Monsters: a Fan’s Dilemma – Claire Dederer
- Lake of Darkness – Adam Roberts
- Gotham City Year One – Tom King
- The Human Target, volume 1 – Tom King
- The Human Target, volume 2 – Tom King
- Wonder Woman, Dead Earth – Daniel Warren Johnson
- Hominids- Robert J. Sawyer
- The Claw of the Conciliator– Gene Wolfe
- Humans – Robert J Sawyer
- Borges e os Orangotangos Eternos – Luis Fernando Veríssimo
- Hybrids – Robert J Sawyer
- The book of elsewhere – Mieville, Reeves
- Um Milhão de Mim – Cirilo Lemos
- Espero que eu não me apaixone por você – Cesar Alcázar
- Além do Véu da Verdade – ed. J.M.Beraldo
- Paradises Lost – Ursula K LeGuin
- Last and First Men – Olaf Stapledon
- Os Despossuídos– Ursula K LeGuin
- Ainda Estou Aqui– Marcelo Rubens Paiva
- O Olho de Gibraltar – Sérgio P. Rossoni
- Sonny Boy – Al Pacino
Livros lidos parcialmente:
- O Tiradentes – Lucas Figueiredo
- Cryptonomicon – Neal Stephenson
- O Despertar de Tudo – David Graeber e David Wengrow
- Dívida– David Graeber
- Repórter – Seymour Hersh
- World Without End – Ken Follett
- How to Focus – Thich Nhat Hanh
- A Geração Ansiosa – Jonathan Haidt
A proporção me surpreendeu, porque eu tinha a impressão de que havia deixado de finalizar um número bem maior de livros. A falta de foco foi bem menor que a do ano passado (apesar da ironia de ter deixado o livro sobre foco do mestre budista Thich Nhat Hanh pela metade). Os livros de David Graeber e o de Haidt são bons demais para leituras apressadas. Sigo lendo devagar cada um e fazendo anotações para futuras pesquisas: os três me foram muito úteis nas aulas que ministro na faculdade de Jornalismo da PUC-SP. Não tenho mais muita esperança de finalizar Cryptonomicon algum dia (a menos que eu pudesse traduzi-lo: fica a dica para qualquer editora que estiver lendo este post), e o Ken Follett é uma leitura prazerosa que vou retomar este ano, mas somente depois de reler com ainda mais prazer a trilogia de Thomas Cromwell escrita por Hilary Mantel.
Dos livros finalizados, os que mais me surpreenderam foram Web of Angels e Too Like the Lightning. Ambos me resgataram o sense of wonder típico da boa literatura de ficção científica, que eu não sentia fazia tempo (um dos problemas que se tem com a idade e o volume de livros lidos desse gênero ao longo da vida). O primeiro, escrito por John M. Ford e publicado em 1980, é o que Cory Doctorow chamou, no prefácio da edição mais recente, um cyberpunk alternativo: ambientado num futuro distante, ele tem como protagonista um hacker que domina um computador baseado num modelo da época no nosso mundo, numa estrutura inteiramente diferente da que usamos hoje, mas com o mesmo recurso de realidade virtual que William Gibson usaria quatro anos mais tarde em Neuromancer. Esse livro tem uma pegada mais para Samuel Delany em Nova e Babel-17, aliás, e uma curiosidade que me impressionou: Ford usa o termo Web para se referir à realidade virtual criada por seus computadores desse universo, deixando muito clara a metáfora de uma teia de aranha, algo que só viria a ser usado dez anos depois por Tim Berners-Lee ao criar a interface gráfica da World Wide Web. Em Too Like the Lightning, Ada Palmer me surpreendeu por utilizar um recurso ousado, que tinha tudo para dar errado: um narrador em primeira pessoa que, no século 25, tem a afetação erudita de usar uma prosódia do século 18, algo que poderia ser entediante mas só fez despertar minha curiosidade para saber que mundo tão diferente do nosso era aquele. São leituras que recomendo fortemente, e espero (fica outra dica aí) que alguma editora se interesse em traduzi-los aqui no Brasil.
