Voltando das férias, mas ainda antes do início das aulas (só depois do Carnaval), então aproveito para ler ou reler alguns livros, e fazer apontamentos para aulas. O livro da vez é A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, que li pela primeira vez no ano em que foi publicado aqui, 2015.
Estou me surpreendendo – e não de modo positivo. A primeira página já nos mostra o quanto o texto datou em poucos anos (a publicação original é de 2010). Han começa afirmando cabalmente que não vivemos numa época viral: “Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época” (HAN, 2015, p. 7). Mesmo que assumamos que o viés dele é puramente filosófico, ele não deixa margens uma abordagem mais ampla, digamos: ele segue daí para explicar a violência neuronal, um conceito pouco disseminado mas é que muito interessante, por conta de condições como o TDAH ou a Síndrome de Burnout (aliás, o título em inglês deste livro é justamente The Burnout Society). Han rejeita o que chama de paradigma imunológico, e cita Baudrillard para refutá-lo.
Contudo, em tempos pós-pandêmicos e de ascensão do fascismo, é difícil levar a sério pelo menos essa parte do pensamento de Han. Ele insiste em que Baudrllard usa um paradigma ultrapassado por insistir numa violência viral, mas esquece convenientemente que o filósofo francês morre em 2007, pouco antes do surgimento de dois grandes fatores da violência neuronal (tecnicamente falando; nem estou me referindo ao capitalismo aceleracionista), os smartphones com grande largura de banda e as redes sociais. Han advoga um certo isolamento e “desligamento” dos sistemas técnicos para não sucumbirmos a essa violência neuronal, e está certíssimo.
Só que não se pode negar a violência viral – venha ela das pandemias ou dos memes. Por isso gosto muito do conceito de espectro, que tem sido cada vez mais utilizado atualmente. A sexualidade tem um espectro; a neurodiversidade tem um espectro; a política tem um espectro. Na verdade, fica cada vez mais difícil sustentar a ideia de binarismos. Onde há espectro há lugar para todas as possibilidades. Vivemos uma grande violência neuronal, sim; mas também vivemos uma imensa violência viral, real e metafórica.
Dizer que o ano que passou foi muito movimentado é um clichê sem tamanho – mas foi assim. Além das traduções (três volumes de O Livro do Novo Sol, a monumental obra de Gene Wolfe), assumi no segundo semestre a função de coordenador do curso de Jornalismo da PUC-SP, um cargo que requer muito trabalho e cuidado, e que tomou a maior parte do meu tempo, tanto que perdi o pé e acabei não postando aqui a minha lista mensal de filmes assistidos (estou pensando em postar tudo de uma vez só, uma grande lista anual, mas não prometo nada).
Com relação a filmes, começo 2026 com uma boa notícia: estou publicando resenhas na Revista Pós-Créditos, uma publicação bacanérrima que descobri recentemente graças ao amigo Gabriel Carneiro, que foi um dos seus editores. Nas palavras do editor-chefe Álvaro André Zeini Cruz,
Pós-créditos é uma revista online dedicada à crítica de cinema, televisão e outros audiovisuais. Nasceu realizada por discentes dos cursos de Multimeios e Midialogia da UNICAMP, mas hoje é mantida de forma independente, com publicação em fluxo contínuo.
Publiquei até o momento dois textos lá. Um sobre ANDOR, a série de Star Wars, que é a tradução do texto publicado originalmente em inglês na revista marxista britânica Red Futures. O outro, escrito especialmente para a Pós-Créditos, trata da série PLURIBUS, que vi na Apple +. Já estou escrevendo mais um texto, desta vez sobre cinema. E mais novidades virão até o mês que vem, mas sobre isso eu posto depois.
Também participei de nada menos que quatro podcasts nesses primeiros dias do ano. Dois deles ainda não foram ao ar, mas os outros dois já podem ser acessados. O primeiro é o especial Fisher e os Fisherianos, do excelente Crise Crise Crise, do comparsa Amauri Gonzo. Neste link você pode acessar a página que leva tanto à versão em áudio no Spotify quanto à live em vídeo no YouTube da editora Autonomia Literária.
O segundo na verdade é uma live em vídeo somente, no meu canal Terra Incógnita, justamente sobre Mark Fisher e o curso que estou preparando na educação continuada da PUC-SP sobre ele. MARK FISHER: PENSADOR DA CULTURA POP pretende tratar das chamadas Aulas Perdidas de Mark Fisher, ou seja, as dez aulas que faltaram de seu curso na Goldsmiths University de Londres entre 2016 e 2017. As cinco primeiras do conjunto original de quinze foram transcritas e publicadas. Eu as traduzi para o português brasileiro pela editora Autonomia Literária sob o título Desejo Pós-Capitalista: Últimas Aulas. Estamos partindo do programa do curso para elaborar nossa visão do que poderiam ter sido as aulas restantes, sob uma perspectiva fisheriana sim, mas também bem Sul Global, bem brasileira.
Ainda estou mais ou menos de férias da universidade. Isso é relativo, porque sigo estudando e preparando aulas, tanto as da graduação quanto as do curso de Fisher. E vendo filmes e lendo livros. A ideia é postar mais por aqui em 2026. Oremos.
Existe um termo assim que seja o antônimo de soft opening? Se não existe, invento agora. Ando pensando muito em como sair das redes sociais, o que sempre me frustra porque, bem ou mal (mais mal do que bem) preciso das redes para divulgar meu trabalho. A questão é que mesmo com as redes, a presença digital de quem não é uma celebridade é muito pequena. Passamos despercebidos o tempo quase todo por conta das manipulações do algoritmo.
Desde o ano passado venho experimentando diferentes estratégias para ficar menos tempo nas redes. A única que tem funcionado com alguma eficácia é deletar os apps do celular. Eu já tinha feito isso com o Bluesky no ano passado (e nunca mais voltei a postar lá), e agora fiz com o Threads (do qual entro e saio desde o começo do ano) e com o Facebook (que uso com uma certa frequência mas que nos últimos meses tem sido frustrante porque quase ninguém tem visto meus posts). Ainda tenho o Instagram e provavelmente sempre terei porque administro a conta do curso de jornalismo da PUC-SP, que estou coordenando no momento, mas devo reduzir o tempo empregado na minha conta pessoal, postando apenas quando tiver novidades na área de publicações.
Além do trabalho na universidade, tenho me dedicado mais e mais à pesquisa científica, com foco no conceito de utopias logísticas, que será o tema da minha comunicação no XVIII Simpósio Nacional da ABCiber 2025. (Utopia Logística e o Capitalismo Algorítmico: : Notas sobre Infraestrutura, Aceleração e Cibercultura no Antropoceno é o título. Assim que souber mais detalhes sobre a apresentação, aviso.) E também a literatura: devo lançar um romance no fim do ano e estou me preparando para escrever o próximo.
Para isso eu preciso de tempo, concentração e paz de espírito – coisa que as redes sociais não dão. Por isso esse soft closing. Deverei postar bem menos nas redes de agora em diante, mas quando eu postar será algo relevante.
Na bagunça do dia-a-dia, claro que eu deixei novamente de postar textos aqui. Vou retomando aos poucos, mas hoje aproveito uma brechinha nos trabalhos para avisar de duas publicações recentes.
A primeira é um artigo acadêmico que saiu na Revista Comunicação & Sociedade, do PPGCOM da Universidade Metodista de São Paulo. Um outro mundo é possível… e talvez viável: Notas sobre Red Mars, de Kim Stanley Robinson, e sua utopia logística trata, claro, do que está no título, com ênfase nos trabalhos de Tom LeClair sobre romances de sistemas. Nesse texto eu defendo que Red Mars é um romance de sistemas tanto quanto O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, usando a estratégia narrativa do metálogo, de Gregory Bateson, para explicar essa estrutura.
A segunda é na verdade uma terceira: a terceira edição do meu livro De A a Z: coisas que você deveria saber antes de escrever seu livro, já está na Amazon Kindle. A primeira edição foi lançada em 2018 também no Kindle, mas logo em seguida Toni Moraes, da editora Monomito, se interessou e propôs publicar em edição impressa. Essa segunda edição ficou linda, e circulou durante a pandemia, mas então a editora fechou as portas e o livro ficou no limbo por cerca de três anos. Esse hiato foi bom de certa forma, porque reescrevi os verbetes e praticamente dobrei o número de páginas do livro. Essa edição, portanto, é bem diferente das duas anteriores. Se você já tem, vale a pena adquirir. E se ainda não tem, agora é a hora.
Demorei, mas eu estava ocupado trabalhando – e vendo filmes. Quero ver se posto nos próximos dias as relações de filmes assistidos até julho deste ano. Retomando os trabalhos com os 21 filmes vistos em fevereiro:
Casamentos Cruzados – Nicholas Stoler Sherlock Jr. – Buster Keaton The Untold Story of Mary Poppins – sem informações It All Came True – Lewis Seiler San Quentin – Lloyd Bacon Saving Mr. Banks – John Lee Hancock Queer – Luca Guadagnino King of the Underworld – Lewis Seiler Vingadores: Guerra Infinita – Anthony e Joe Russo La Dolce Villa – Mark Waters Vingadores: Ultimato – Anthony e Joe Russo You Can’t Get Away With Murder- Lewis Seiler The League of Gentlemen – Basil Dearden Nessuno mi poi giudicare- Massimilianno Bruno Saturday Night – Jason Reitman The Suspicions of Mr. Whicher: The Murder at Road Hill House – James Hawes The Suspicions of Mr. Whicher: The Murder on Angel Lane – Christopher Menaul Ant-Man and the Wasp: Quantumania – Peyton Reed The Suspicions of Mr. Whicher: Beyond the Pale – James Hawes, David Blair The Suspicions of Mr. Whicher: The Ties That Bind – Geoffrey Sax The Conversation – Francis Ford Coppola
Estatísticas:
Dos 21, revi apenas três, todos da Marvel. Sabe aqueles dias em que você apenas quer ver algo divertido e não pensar demais? Tive alguns desses dias em fevereiro. Todos os demais foram vistos pela primeira vez, com algumas surpresas bem interessantes, entre as quais um festival de filmes noir com Humphrey Bogart logo antes de Casablanca. Nem todos são exatamente bons, mas vale a pena conferir.
Com Patrícia eu vi apenas um: Casamentos Cruzados, com Reese Witherspoon e Will Farrell. Gosto dos dois atores e achei que valeria a pena. Não valeu. O filme começa bem, ainda que com a premissa clichê bem previsível, mas vai ficando muito bobo, e terminou bem abaixo do que poderia ter sido (ou seja, previsível mas divertido).
Idiomas: Praticamente todos em inglês, com a exceção de Nessuno mi poi giudicare, uma comedinha classe-operária italiana com Paola Cortellesi, uma das minhas atrizes preferidas do bel paese, também clichê porém divertida. (O filme de Buster Keaton é mudo, mas é produzido nos EUA e tem intertítulos em inglês, então conta com sendo nesse idioma.)
Filmes de/sobre mulheres: além do filme citado logo acima, temos apenas outros três: Casamentos Cruzados e os dois filmes sobre Mary Poppins e sua criadora, a escritora australiana P. L. Travers. Comecei a ver Mary Poppins, mas preciso confessar uma coisa: nunca consegui terminar esse filme, e não foi desta vez.
Os que mais gostei:
Sherlock Jr – Não sei se é o primeiro filme a trabalhar a metalinguagem da tela de cinema (se bem conheço os soviéticos, provavelmente não), mas é muito divertido, e as soluções encontradas por Keaton são geniais. Para quem não conhece a obra dele, é um bom ponto de entrada. No Criterion Channel.
The Conversation – A Conversação é um clássico que eu andava me devendo fazia um bom tempo. Que bom que consegui vê-lo (no Criterion Channel): Gene Hackman num de seus melhores papeis, um homem fechado e paranoico que trabalha com escutas e acaba captando algo que não deveria, o que o coloca num dilema moral. Mas o bom desse filme é que ele foi feito nos anos 1970, com toda uma atmosfera mundo-cão que não tem nada a ver com os atuais filmes de conspiração, onde o mocinho sempre corre, dá tiro, porrada e bomba e acaba salvando o dia. Não é bem assim que a banda toca na vida real, e esse filme é mais vida-real que qualquer outra coisa.
Uma menção honrosa vai para os quatro telefilmes da série britânica Mr. Whicher, estrelados por Paddy Considine. A série é baseada na história real de um dos primeiros detetives particulares do mundo, que saiu da Scotland Yard após um escândalo mas continuou por anos trabalhando solo, e às vezes até em parceria com a Yard, e as histórias, ambientadas na Londres da década de 1860 (período retratado nos livros de Charles Dickens) prendem a atenção. Na Amazon Prime britânica.
Fazendo uma limpeza no meu Dropbox, descobri os apontamentos para uma fala minha num evento da PUC-RS em 2016 – nele, eu lançava as bases de algo que eu estava começando a investigar, o conceito de Utopia Logística. É uma fala um tanto dispersa – tenho o hábito de escrever em bullet points, pequenos parágrafos à maneira das teses wittgensteinianas, que me servem como balizas para desenvolver meu pensamento. Foi mais ou menos o que fiz nesses apontamentos, parte dos quais publico abaixo.
A comunicação e as visões utópicas da ficção científica recente
. Afinal, a ficção científica prevê o futuro ou ajuda a construí-lo? Como esse gênero literário moldou e ainda molda corações e mentes de leitores, construindo pontes entre realidade e possibilidade. De Fourier e Saint-Simon, arquitetos de sociedades propostas, a Kim Stanley Robinson, criador de realidades alternativas, quais são os modos de vida, a tecnologia e a comunicação que desejamos?
. Se, como disse William Gibson em Burning Chrome, “a rua encontra suas próprias utilidades para as coisas”, o mesmo se aplica às populações. Sistemas de governo não são orgânicos, mas o desejo o é – e quando aplicado à coletividade, temos um mix que desafia a lógica, porque precisa equilibrar desejo, necessidade, vontade e uma vida possível.
. Chegando daqui a pouco aos 500 anos da Utopia de Thomas More, que na verdade falava de utopos, algo que não está em lugar nenhum (Marc Auge definiu isso bem como não-lugar, mas que possui uma vida diferente, locais intersticiais e de passagem como aeroportos – mas por outro lado temos também o conceito de Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey. Esses conceitos atualizam os falanstérios de Fourier, as propostas socialistas utópicas de Saint-Simon e da Fabian Society invertendo não sua função, mas o papel de seus sujeitos – concedendo-lhes autonomia para gerenciar seus espaços – algo também não muito diferente dos projetos anarquistas italianos do século 19 para 20.
. Dito isso, definimos uma utopia tendo três características básicas, que podem ser assim enunciadas:
. Utopia é arquitetura – tanto física quanto de informação; . Utopia é engenharia – tanto civil quanto social . Utopia é logística – organização e distribuição de produtos, serviços e dados
. Muito já foi falado a respeito da arquitetura nos projetos dos utopistas. Da engenharia, um pouco menos – a simples existência de redes sociais como Twitter e Facebook poderia até se encaixar, com uma certa boa vontade, na definição de uma utopia comunicacional para McLuhan e Arthur C. Clarke e seus seguidores, mesmo com o ruído inerente a elas em sua utilização.
. E menos ainda da logística – o que é um erro de raciocínio, porque uma arquitetura, sendo a criação de um espaço concreto, é constantemente reformada, renegociada com os espaços ao seu redor (tanto os de convivência quanto os vazios). Mas a logística é fluxo.
. Todo projeto utópico é de certa forma um projeto logístico. Uma utopia não se constrói só com boas intenções – todos conhecemos aquele famoso ditado a respeito do inferno. Uma utopia é uma obra política, no sentido de pólis, e uma obra de engenharia, tanto civil quanto social. Como fazer para adequar os fluxos de transporte, alimentação, esgotamento sanitário, os inputs e outputs da comunidade?
. Isso requer uma medida de organização nada orgânica. Organizações utópicas tendem ao controle e à vigilância – e talvez tenha sido por isso que tantas delas nunca saíram do papel, e as que saíram não funcionaram.
. Dentro deste contexto, a ficção científica (seja em sua forma audiovisual ou literária) oferece uma saída para esse dilema, ou tenta. Sempre tentou, em cada época da maneira que podia.
. Na época de Arthur C. Clarke, que vai dos anos 1950 até 1984 (quando ocorre o declínio da FC grandiloquente e o nascimento das distopias cyberpunks, representadas pelo Neuromancer, de William Gibson) ele era considerado um utopista tecnológico, porém um autor religioso ele próprio em sua crença inabalável de que só a tecnologia salva – utopicamente adequando as expectativas das pessoas ao que seria mais lógico e prático.
. A FC de hoje serve como uma imensa tela para a exibição de um imaginário que, mais do que religioso em sua pregação da salvação pela ciência, revela questionamentos e dúvidas na busca por um mundo não mais perfeito, mas não-sufocante, passível de ser vivido e sobrevivido. As mulheres e os homens que habitam esse mundo em sua imensa maioria jamais chegaram à post-scarcity age, a era do fim da escassez de recursos. Eles querem simplesmente encontrar maneiras de reciclar a tudo, inclusive a si mesmos.
. A FC atual atua majoritariamente sobre um paradigma de narrativa procedimental ou procedural.
. Todo escritor de ficção científica é também um pesquisador. Nem sempre acadêmico (Mark Bould e China Miéville, por exemplo, o são, bem como Samuel Delany), mas sim escritores que pertencem a uma categoria o mais próxima possível (talvez à exceção do escritor de narrativas históricas) do acadêmico, ensaísta ou articulista, pois enquanto este constrói uma narrativa de mundo aberta e com referências ao nosso mundo, o outro arquiteta narrativas autocontidas e não necessariamente fechadas.
. Essas janelas para o mundo, que na FC quase sempre se abrem para mundos possíveis, vários deles prováveis, são trabalhadas numa carpintaria literária e de engenharia por autores como Kim Stanley Robinson, autor da trilogia marciana (Red Mars, Green Mars, Blue Mars), 2312 e Aurora.
. Robinson foi criticado recentemente pela revista New Republic como tendo uma prosa “asimoviana”, o que pode ser considerada uma meia-verdade. A narrativa de Isaac Asimov era mais “organizacional” e menos “orgânica” – o caráter dos personagens era por demais bidimensional – não havia a preocupação de lhes conferir humanidade. Só o projeto (leia-se o objetivo final da construção de uma sociedade utópica) importava.
. Porque o gerenciamento de pessoas se confunde facilmente com totalitarismo ou religião – regras ou dogmas que devem ser obedecidos sem questionamento pois uma casta superior (sacerdotes ou engenheiros) sabem o que é melhor.
(a partir daí, os apontamentos se transformam numa escrita meio taquigráfica, com referencias a outros participantes do evento a respeito dos quais, infelizmente, pouco ou nada lembro. Mas este é o primeiro texto que escrevi sobre a relação dos projetos utópicos com o conceito de logística.)
For our analysis we shall define culture in the following way: Culture is the attempt by man to realize the conceivable in the possible. Man’s consciousness of himself within his environment distinguishes him from the lower animals, and turns him into the only animal capable of culture. This consciousness. his highest faculty, allows him to project mentally states of being that do not exist at the moment: Able to constnuct a past and future, he becomes a creature of timea historian and a prophet. More than this, he can imagine objects and states of being that have never existed and may never exist in the real world-he becomes a maker of art. Thus. for example, though the ancient Greeks did not know how to fly, still they could imagine it. The myth of Icarus was the formulation in fantasy of their conception of the state ‘flying’.
These two different responses, the idealistic and the scientific, do not merely exist simultaneously: there is a dialogue between the two. The imaginative construction precedes the technological, though often it does not develop until the technological knowhow is ‘in the air’. For example, the art of science fiction developed, in the main, only a half-century in advance of, and now coexists with, the scientific revolution that is transforming it into a reality-for example (an innocuous one), the moon flight. The phrases ‘way out’, ‘far out’. ‘spaced’, the observation ‘it’s like something out of science fiction’ are common language.
Culture then is the sum of, and the dynamic between. the two modes through which the mind attempts to transcend the limitations and contingencies of reality.
In: Robin MacKay e Arvin Avanessian (eds.), #Accelerate# – The Accelerationist Reader (2014)
Volto aos posts aqui depois de dois meses com algo que tem me inquietado. Estou me preparando para um segundo pós-doc, e uma das coisas que tenho investigado nos últimos tempos, atrelada ao conceito de utopias logísticas, é o romance de sistemas. O conceito, criado por Tom LeClair, faz alusão à teoria dos sistemas do biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy, que estudei no doutorado mas até pouco tempo atrás não havia entrado no meu radar acadêmico. Basicamente, ele envolve a criação de uma trama literária dentro de um cenário com grande nível de complexidade.
Até aí, tudo bem: não faltam livros que se encaixem nessa categoria. Só LeClair de cara já seleciona vários, entre eles O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, Underworld, de Don DeLillo (um dos favoritos de LeClair) e J.R., de William Gaddis. Todos calhamaços de no mínimo 400 páginas, com narrativas costumeiramente fixadas na história dos EUA, através de uma figura ficcional (que orbita ao redor de várias outras, ficcionais e do mundo real) e se expande para abranger diversas áreas do conhecimento e tentar explicar o mundo em que vive o protagonista.
Ontem tive acesso a um livro recente sobre romances de sistemas, chamado Paper Empires, voltado à obra de Gaddis. E aí me dei conta: ao longo desse tempo que tenho pesquisado o romance de sistemas (pouco mais de um ano), não encontrei um só livro desse tipo escrito por uma mulher. Ontem lancei a pergunta ao éter das mídias sociais e alguns amigos anglo-americanos me sugeriram vários nomes, entre eles Amalgamemnon, de Christine Brooke-Rose (que até onde sei jamais teve algum livro publicado no Brasil, mas que teve um ensaio publicado dentro do livro Interpretação e Superinterpretação, editado por Umberto Eco) e A Visita Cruel do Tempo, livro que ganhou o Pulitzer de Ficção de 2011, de Jennifer Egan. Já estou com este último e encomendei o outro. Vamos em frente com a pesquisa – agora com autoras, que para mim são indispensáveis no processo.
Ontem se comemoraram oitenta e oito anos da morte de H. P. Lovecraft. Gosto de algumas histórias dele, não de todas – talvez não goste da maioria, aliás. Acho que já li tudo ou quase tudo dele. Traduzi, junto com o amigo Sylvio Gonçalves, alguns de seus primeiros contos, muito tempo atrás, para a finada editora carioca Francisco Alves. Também traduzi Nas Montanhas da Loucura para a Editora Underworld, casa que durou muito pouco tempo, infelizmente, porque publicou uma série de ótimos livros, do Young Adult ao Steampunk, e que fechou antes que o livro saísse. Meu romance O TORNEIO DE SOMBRAS pega emprestado o Chtulhu Mythos de passagem (mas ele vai figurar com mais detalhes numa aventura futura de January Purcell). Gosto das histórias envolvendo os Grandes Antigos e Chtulhu, repudio veementemente seu racismo e gosto ainda mais das histórias de autores mais recentes que recontam o mythos para os dias de hoje, subvertendo os conceitos dele e transformando as narrativas originais em antirracistas ou feministas, como respectivamente no livro Lovecraft Country, de Matt Ruff, ou a novela genial The Dream-Quest of Vellitt Boe, de Kij Johnson.
E fico pensando se o velho Howard Philip não terá (como muitos autores antes e depois dele) atirado onde viu e acertado no que não viu, com relação às divindades que infestam nosso mundo e nossas mentes. Chtulhu, segundo ele, era uma entidade tão assustadora que descrevê-la inteiramente seria impossível (embora ele tenha feito isso em The Call of Chtulhu, o primeiro conto a tratar da criatura, e que está completando cem anos em 2026, aliás). Vê-la era enlouquecer, e é efetivamente o que acontece com todos os que a contemplam.
Hoje, ao ler as notícias do Brasil e do mundo, com seus genocídios, manifestações defendendo anistia de golpistas e outras coisas, eventos cujos participantes buscam sempre razão para o que fazem nas religiões do planeta, me veio um pensamento: e se na verdade os humanos sempre veneraram os Grande Antigos achando que estavam fazendo o contrário? Alanis Morrisette cantava: “e se deus for um de nós?” para falar de como a empatia é tão necessária e tão pouco praticada. Mas talvez deus não seja nenhum de nós. Talvez deus e Chtulhu sejam a mesma coisa, a mesma entidade, e o que a espécie humana no fundo (e na superfície) gosta de adorar é o horror absoluto e irredimível. Talvez. Mas isso é para quem acredita nessas histórias, claro.