Utopias Logísticas – o Marco Zero

Fazendo uma limpeza no meu Dropbox, descobri os apontamentos para uma fala minha num evento da PUC-RS em 2016 – nele, eu lançava as bases de algo que eu estava começando a investigar, o conceito de Utopia Logística. É uma fala um tanto dispersa – tenho o hábito de escrever em bullet points, pequenos parágrafos à maneira das teses wittgensteinianas, que me servem como balizas para desenvolver meu pensamento. Foi mais ou menos o que fiz nesses apontamentos, parte dos quais publico abaixo.

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A comunicação e as visões utópicas da ficção científica recente

. Afinal, a ficção científica prevê o futuro ou ajuda a construí-lo? Como esse gênero literário moldou e ainda molda corações e mentes de leitores, construindo pontes entre realidade e possibilidade. De
Fourier e Saint-Simon, arquitetos de sociedades propostas, a Kim Stanley Robinson, criador de realidades alternativas, quais são os modos de vida, a tecnologia e a comunicação que desejamos?

. Se, como disse William Gibson em Burning Chrome, “a rua encontra suas próprias utilidades para as coisas”, o mesmo se aplica às populações. Sistemas de governo não são orgânicos, mas o desejo o é – e quando aplicado à coletividade, temos um mix que desafia a lógica, porque precisa equilibrar desejo, necessidade, vontade e uma vida possível.

. Chegando daqui a pouco aos 500 anos da Utopia de Thomas More, que na verdade falava de utopos, algo que não está em lugar nenhum (Marc Auge definiu isso bem como não-lugar, mas que possui uma vida diferente, locais intersticiais e de passagem como aeroportos – mas por outro lado temos também o conceito de Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey. Esses conceitos atualizam os falanstérios de Fourier, as propostas socialistas utópicas de Saint-Simon e da Fabian Society invertendo não sua função, mas o papel de seus sujeitos – concedendo-lhes autonomia para gerenciar seus espaços – algo também não muito diferente dos projetos anarquistas italianos do século 19 para 20.

. Dito isso, definimos uma utopia tendo três características básicas, que podem ser assim enunciadas:

. Utopia é arquitetura – tanto física quanto de informação;
. Utopia é engenharia – tanto civil quanto social
. Utopia é logística – organização e distribuição de produtos, serviços e dados

. Muito já foi falado a respeito da arquitetura nos projetos dos utopistas. Da engenharia, um pouco menos – a simples existência de redes sociais como Twitter e Facebook poderia até se encaixar, com uma certa boa vontade, na definição de uma utopia comunicacional para McLuhan e Arthur C. Clarke e seus seguidores, mesmo com o ruído inerente a elas em sua utilização. 

. E menos ainda da logística – o que é um erro de raciocínio, porque uma arquitetura, sendo a criação de um espaço concreto, é constantemente reformada, renegociada com os espaços ao seu redor (tanto os de convivência quanto os vazios). Mas a logística é fluxo.

. Todo projeto utópico é de certa forma um projeto logístico. Uma utopia não se constrói só com boas intenções – todos conhecemos aquele famoso ditado a respeito do inferno. Uma utopia é uma obra política, no sentido de pólis, e uma obra de engenharia, tanto civil quanto social. Como fazer para adequar os fluxos de transporte, alimentação, esgotamento sanitário, os inputs e outputs da comunidade?

. Isso requer uma medida de organização nada orgânica. Organizações utópicas tendem ao controle e à vigilância – e talvez tenha sido por isso que tantas delas nunca saíram do papel, e as que saíram não funcionaram.

. Dentro deste contexto, a ficção científica (seja em sua forma audiovisual ou literária) oferece uma saída para esse dilema, ou tenta. Sempre tentou, em cada época da maneira que podia.

. Na época de Arthur C. Clarke, que vai dos anos 1950 até 1984 (quando ocorre o declínio da FC grandiloquente e o nascimento das distopias cyberpunks, representadas pelo Neuromancer, de William Gibson) ele era considerado um utopista tecnológico, porém um autor religioso ele próprio em sua crença inabalável de que só a tecnologia salva – utopicamente adequando as expectativas das pessoas ao que seria mais lógico e prático.

. A FC de hoje serve como uma imensa tela para a exibição de um imaginário que, mais do que religioso em sua pregação da salvação pela ciência, revela questionamentos e dúvidas na busca por um mundo não mais perfeito, mas não-sufocante, passível de ser vivido e sobrevivido. As mulheres e os homens que habitam esse mundo em sua imensa maioria jamais chegaram à post-scarcity age, a era do fim da escassez de recursos. Eles querem simplesmente encontrar maneiras de reciclar a tudo, inclusive a si mesmos.

. A FC atual atua majoritariamente sobre um paradigma de narrativa procedimental ou procedural.

. Todo escritor de ficção científica é também um pesquisador. Nem sempre acadêmico (Mark Bould e China Miéville, por exemplo, o são, bem como Samuel Delany), mas sim escritores que pertencem a uma categoria o mais próxima possível (talvez à exceção do escritor de narrativas históricas) do acadêmico, ensaísta ou articulista, pois enquanto este constrói uma narrativa de mundo aberta e com referências ao nosso mundo, o outro arquiteta narrativas autocontidas e não necessariamente fechadas.

. Essas janelas para o mundo, que na FC quase sempre se abrem para mundos possíveis, vários deles prováveis, são trabalhadas numa carpintaria literária e de engenharia por autores como Kim Stanley Robinson, autor da trilogia marciana (Red Mars, Green Mars, Blue Mars), 2312 e Aurora.

. Robinson foi criticado recentemente pela revista New Republic como tendo uma prosa “asimoviana”, o que pode ser considerada uma meia-verdade. A narrativa de Isaac Asimov era mais “organizacional” e menos “orgânica” – o caráter dos personagens era por demais bidimensional – não havia a preocupação de lhes conferir humanidade. Só o projeto (leia-se o objetivo final da construção de uma sociedade utópica) importava.

. Porque o gerenciamento de pessoas se confunde facilmente com totalitarismo ou religião – regras ou dogmas que devem ser obedecidos sem questionamento pois uma casta superior (sacerdotes ou engenheiros) sabem o que é melhor.

(a partir daí, os apontamentos se transformam numa escrita meio taquigráfica, com referencias a outros participantes do evento a respeito dos quais, infelizmente, pouco ou nada lembro. Mas este é o primeiro texto que escrevi sobre a relação dos projetos utópicos com o conceito de logística.)

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