Ontem se comemoraram oitenta e oito anos da morte de H. P. Lovecraft. Gosto de algumas histórias dele, não de todas – talvez não goste da maioria, aliás. Acho que já li tudo ou quase tudo dele. Traduzi, junto com o amigo Sylvio Gonçalves, alguns de seus primeiros contos, muito tempo atrás, para a finada editora carioca Francisco Alves. Também traduzi Nas Montanhas da Loucura para a Editora Underworld, casa que durou muito pouco tempo, infelizmente, porque publicou uma série de ótimos livros, do Young Adult ao Steampunk, e que fechou antes que o livro saísse. Meu romance O TORNEIO DE SOMBRAS pega emprestado o Chtulhu Mythos de passagem (mas ele vai figurar com mais detalhes numa aventura futura de January Purcell). Gosto das histórias envolvendo os Grandes Antigos e Chtulhu, repudio veementemente seu racismo e gosto ainda mais das histórias de autores mais recentes que recontam o mythos para os dias de hoje, subvertendo os conceitos dele e transformando as narrativas originais em antirracistas ou feministas, como respectivamente no livro Lovecraft Country, de Matt Ruff, ou a novela genial The Dream-Quest of Vellitt Boe, de Kij Johnson.
E fico pensando se o velho Howard Philip não terá (como muitos autores antes e depois dele) atirado onde viu e acertado no que não viu, com relação às divindades que infestam nosso mundo e nossas mentes. Chtulhu, segundo ele, era uma entidade tão assustadora que descrevê-la inteiramente seria impossível (embora ele tenha feito isso em The Call of Chtulhu, o primeiro conto a tratar da criatura, e que está completando cem anos em 2026, aliás). Vê-la era enlouquecer, e é efetivamente o que acontece com todos os que a contemplam.
Hoje, ao ler as notícias do Brasil e do mundo, com seus genocídios, manifestações defendendo anistia de golpistas e outras coisas, eventos cujos participantes buscam sempre razão para o que fazem nas religiões do planeta, me veio um pensamento: e se na verdade os humanos sempre veneraram os Grande Antigos achando que estavam fazendo o contrário? Alanis Morrisette cantava: “e se deus for um de nós?” para falar de como a empatia é tão necessária e tão pouco praticada. Mas talvez deus não seja nenhum de nós. Talvez deus e Chtulhu sejam a mesma coisa, a mesma entidade, e o que a espécie humana no fundo (e na superfície) gosta de adorar é o horror absoluto e irredimível. Talvez. Mas isso é para quem acredita nessas histórias, claro.
