Assistindo a Doctor Who

Já faz um tempo que assinei o streaming da BritBox, que contém quase tudo da BBC e da iTV. É um streaming bem eficiente, particularmente se considerarmos que a BBC, que aderiu ao Brexit com força, foco e fé, simplesmente não aceita que ninguém de fora do Reino Unido assine seu streaming oficial. A BritBox britânica, aliás, fechou há alguns meses, restando apenas a americana, que é a que eu assino. Mas eu nem teria assinado o canal da terra do rei, porque por incrível que pareça eles não tinham o que eu estava procurando: a série clássica de Doctor Who.

Para quem não sabe: a série britânica do alienígena viajante do tempo e do espaço, que completou 60 anos em 2023, é dividida agora oficialmente em três séries: a chamada Clássica, que vai desde a criação do programa de TV em 1963 a 1989, a nova, que durou de 2005 a 2022, e a novíssima, produzida em parceria com a Disney +, e que acaba de fechar sua primeira temporada. Eu já havia assistido a quase todos os episódios da nova; não vi todos os de Peter Capaldi e Jodie Whittaker e não sei quando verei porque eles não estão mais disponíveis em nenhum streaming nacional ou estrangeiro, com a exceção do BBC iPlayer.

Mas agora, graças à BritBox, estou matando uma vontade de anos e assistindo aos episódios clássicos, desde o começo.

Infelizmente o começo é um tanto atribulado: dos quase 900 episódios da série inteira, faltam 97, que foram apagados dos arquivos da BBC nos anos 1960 (naquele tempo o armazenamento era em fitas magnéticas, não existia ainda o arquivamento digital). Esses episódios são todos dos primeiros dois doutores, período de 1963 a 1969. E hoje cedo cheguei ao fim dos episódios do Segundo Doutor (Patrick Troughton).

Por conta da confusão dos episódios inexistentes, a quantidade de saltos na cronologia é muito grande, e isso me incomoda profundamente (mente autista, relevem). Vi pouca coisa do Primeiro Doutor (William Hartnell) e um pouco mais do Segundo. A série foi melhorando ao longo desses seis primeiros anos, e o último serial do Segundo Doutor, The War Games, é bem acima da média dos episódios anteriores. O roteiro, escrito por Terrance Dicks (que viria a se tornar um dos mais importantes autores da série, inclusive escrevendo novelizações de episódios e livros com histórias originais de Doctor Who) e Malcolm Hulke, compensa a precariedade dos cenários e as péssimas coreografias de luta e de corre-corre (que me lembraram das chanchadas da Atlântida). É também esse serial que lança o conceito dos Time Lords e mostra pela primeira vez, ainda que num cenário pequeno, o mundo natal do Doutor, Gallifrey (que ainda não tinha esse nome naquele momento).

Eu já tinha dito num artigo para o site Webinsider que a série me provoca uma espécie de nostalgia retroativa, pois embora eu já tivesse ouvido falar de Doctor Who desde a adolescência, a série só começou a ser exibida no Brasil a partir da nova, de 2005, quando eu já tinha 39 anos. Mas sinto um quentinho no coração e um fibrilar nos neurônios, que parecem criar configurações novas e inventar memórias de uma infância alternativa em que eu falava inglês e morava numa casinha modesta de dois andares em Marble Arch, em Londres. É uma sensação curiosa – e boa.

(e agora com licença, que vou começar as aventuras do Terceiro Doutor)

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